Saiu na imprensa: Movimentos sociais e COP 30. Alianças transnacionais contra a ofensiva extrativista global.

El Informante13 de novembro de 2025 Há movimento em Belém. De um lado, a cúpula oficial, inaugurada ontem (10N, ndr.), onde durante duas semanas as delegações dos países discutirão se é possível avançar em termos de mitigação, financiamento e mecanismos para uma transição justa. De outro, diversos fóruns e espaços de encontro em que organizações e grupos sociais de todo o mundo, especialmente da América Latina, tentam nestes dias revitalizar alianças internacionalistas para enfrentar a ofensiva extrativista global. Desde o início, na verdade, não se pode esperar muito. Durante tempo demais, as COPs se transformaram em um ritual pelo qual desfilam os principais líderes mundiais — nesta ocasião, nem sequer os dos países com maiores emissões China, Estados Unidos, Índia e Rússia — para emitir solenes declarações de intenção e promover novos mecanismos que, quando as cortinas das cúpulas se fecham, não se traduzem de forma efetiva em cronogramas e orçamentos. “Não queremos que seja um mercado de produtos ideológicos, queremos algo muito sério e que as decisões sejam aplicadas”, afirmou o presidente do Brasil, ao reconhecer as ineficiências de alguns dos vértices que oscilam entre o greenwashing e o negócio como sempre. No segundo espaço, porém, é possível encontrar esperanças renovadas. Em paralelo à COP 30 — ou poderíamos dizer, em contraste com a cúpula oficial — uma multidão de organizações e movimentos indígenas, ambientalistas, sindicais, feministas e anticapitalistas se reuniu em Belém para repensar estratégias e reativar instâncias internacionais capazes de fortalecer os processos de luta e resistência. Seguindo a experiência do Fórum Social Mundial e os esforços para superar as contradições dos governos progressistas, o objetivo é promover processos de auto-organização comunitária que renovem o tecido social e olhem para além das constantes demandas dirigidas ao Estado. Cúpulas populares As cúpulas populares acontecem há trinta anos no marco das cúpulas climáticas promovidas pelas Nações Unidas. Neste ano, após três edições da COP realizadas em países marcados pela criminalização do direito ao protesto e pela perseguição a ativistas e organizações críticas aos governos, o interesse dos grupos sociais por esse espaço foi retomado. Na Cúpula dos Povos, em Belém, haverá representantes de mais de 1.200 organizações de todo o mundo, reunidas em torno de um objetivo comum “fortalecer a mobilização popular e convergir em agendas únicas socioecológicas, antipatriarcais, anticapitalistas, antirracistas e anticoloniais, baseadas nos direitos humanos, e em um manifesto”. A cúpula nacional começará amanhã, 12 de novembro, com uma marcha fluvial de mais de 200 embarcações, reunindo cerca de 5.000 pessoas. Com essa caravana náutica, os movimentos participantes dessa cúpula alternativa “se uniram para fazer ecoar pelas águas um grito de condenação às decisões da ZP que perpetuam este modelo de exploração territorial”. Como afirmou um dos porta-vozes da iniciativa, “as águas da Amazônia trazem vozes que o mundo precisa escutar as que defendem a vida, os territórios e o clima”. Dezenas de debates, oficinas e assembleias que acontecerão ao longo de quatro dias no âmbito da Cúpula dos Povos culminarão no sábado, 15 de novembro, com grandes manifestações, seguidas de ações descentralizadas em muitos outros países. No domingo, dia 16, as demandas da Cúpula Nacional serão apresentadas no plenário da Comunidade de Prática. Neste evento, o maior de todos os que reunirão ativistas e organizações sociais em torno da COP 30, um dos temas que certamente estará em debate é a relação do movimento com os governos progressistas. Há apenas três semanas, a empresa estatal Petrobras recebeu autorização do governo Lula para explorar petróleo em águas profundas a cerca de 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. Em uma cidade decorada para a ocasião com milhares de cartazes publicitários coloridos que enfatizam a importância do cuidado com a Amazônia, a distância entre a retórica habitual do capitalismo verde e a sempre adiada urgência de transformar a matriz de exportações primárias voltará a ficar evidente. Mas este não é, de forma alguma, o único espaço que ocorre em Belém à margem das iniciativas patrocinadas pelo governo brasileiro. Entre os dias 8 e 11 de novembro, aconteceu o II Encontro Ecossocialista da América Latina e do Caribe, no qual duzentos ativistas de diferentes países se reuniram para, a partir da experiência das lutas contra o saque territorial, pensar estratégias de fortalecimento de uma frente internacionalista comum capaz de enfrentar a crise socioecológica. Da mesma forma, entre 7 e 12 de novembro, ocorreu o IV Encontro Internacional de Atingidos por Barragens, resultado de um processo de coordenação internacional da luta comunitária contra grandes barragens e usinas hidrelétricas que já dura três décadas. Povos contra o extrativismo Em um planeta mergulhado em emergências climáticas e em uma desigualdade extrema criada pelo Capitaloceno — e pelas políticas que pintam de verde o capitalismo — vozes diversas de resistência ao modelo extrativista se uniram em uma coalizão Povos contra o Extrativismo. Esse espaço foi fundado em Belém no dia 9 de novembro para unir e articular movimentos, comunidades e organizações que enfrentam o despojo e apostam em uma transformação profunda de um sistema que ameaça vidas e territórios. Essa rede internacional reúne experiências principalmente da América Latina e da Europa, com a determinação de ampliar sua presença no continente africano. A coalizão é formada por movimentos locais, povos indígenas, afrodescendentes e camponeses, assim como por diversas organizações sociais de massa. Todos lutam, a partir de diferentes frentes, contra o mesmo inimigo o modelo extrativista que sustenta a sobreexploração contínua dos bens comuns e a ampliação das fronteiras de produção para territórios considerados “improdutivos”. Não se limita à mineração ou ao petróleo. Inclui também monocultivos, agronegócio, biocombustíveis e megaprojetos energéticos que consolidam o modelo dependente e geram a reprimarização das economias periféricas. Para essa rede, o extrativismo não é apenas uma prática econômica, mas também uma forma de organização do poder dentro das democracias liberais e um mecanismo de dominação que condiciona a vida das comunidades. Nesta nova fase de acumulação capitalista, o despojo — cinicamente convertido em zonas de sacrifício — se impõe sobre as pessoas e seus territórios, agora justificado
12/11 – Começa a Cúpula dos Povos na COP30 em Belém com grande Barqueata na Bahia do Guajará

Mais de 5 mil pessoas de 62 países vão percorrer os rios que cercam a capital da COP30 em um grande ato político sobre as águas. Uma das embarcações trará lideranças como Raoni na “Caravana da Resposta”. Belém (PA) — Nesta quarta-feira, 12 de novembro, a partir das 9h da manhã, mais de 200 embarcações transportando cerca de 5 mil pessoas vão se reunir na Baía do Guajará, em frente à capital paraense, em um dos momentos mais simbólicos da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30. A Barqueata da Cúpula reunirá caravanas que partiram de outros municípios, Estados e países para denunciar falsas soluções climáticas e anunciar que a resposta para um mundo sustentável é o povo das águas, das florestas e das periferias que resiste com suas práticas coletivas, agroecológicas e ancestrais. A Barqueada terá na Universidade Federal do Pará (UFPA), Augusto Corrêa, território da Cúpula dos Povos, e seguirá margeando o rio Guamá que depois vira rio Guajará para chegar até a Vila da Barca, área de palafitas que é um enclave social, pois, parte das moradias vive sem nenhum saneamento. São décadas de resistência dos moradores à especulação imobiliária e à falta de atenção do poder público. Na preparação da cidade para a COP 30, a Vila da Barca receberia uma estação de tratamento do esgoto de bairro de classe média embelezado nos últimos meses para compor a paisagem turística. Assim, a área tornou-se um exemplo das contradições das conferências que tomam decisões equivocadas, ignorando os mais impactados pelos eventos climáticos extremos. Essas contradições serão expostas em faixas, cartazes que ornamentarão barcos de grande e pequeno porte em um percurso de 4,5 milhas náuticas. A expectativa é sair de quatro portos próximos à UFPA e navegar por cerca de duas horas, tempo médio que leva em consideração a força da maré. “Estamos alinhados e achamos que vai ser histórico!”, diz Iury Paulino, membro da Comissão Política da Cúpula dos Povos e coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O barramento dos rios está entre as ações corporativas e infraestruturas denunciadas por causarem impactos que cada vez mais contribuem para a crise climática como mudança no curso das águas, assoreamentos, extinção de espécies, inundações de áreas que antes eram de floresta e expulsão de comunidades guardiãs de práticas de preservação. Esses impactos também são enfrentados pelos pescadores que mantém histórica relação cultural com o mar. Ribeirinhos e pescadores de todo o mundo sofrem diretamente com as contaminações dos rios e áreas costeiras causadas pela exploração mineral e pelos vazamentos de produtos químicos. No Brasil, os rompimentos das barragens da Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019) provocaram centenas de mortes, destruição de comunidades e graves danos ambientais, contaminando rios e ecossistemas. No Equador, o rompimento do oleoduto SOTE, operado por uma estatal, fez vazar petróleo no Esmeraldas River, em março de 2025, e despejou mais de 25.000 barris de crude, contaminando água potável, rios e comunidades costeiras. Por isso, os movimentos e organizações da Cúpula dos Povos se unem para fazer ecoar sobre as águas o grito de denúncia contra decisões da COP que mantém esse modelo de exploração dos territórios. E contra as corporações que atuam fortemente nos espaços de decisão das Conferências para impedir que metas mais ousadas de redução da exploração dos bens naturais, mitigação e reparação dos danos estejam definidas nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são as metas de cada país para reduzir emissões de gases de efeito estufa e se adaptar às mudanças climáticas, conforme estabelecido no Acordo de Paris. Programação da Cúpula dos Povos na COP30 📍12 de novembro, (quarta-feira) – A manhã será marcada pela Barqueata no Rio Guamá, quando barcos vindos de diversas comunidades ribeirinhas vão chegar em Belém e se somam a delegações nacionais e internacionais, com a participação de aproximadamente 150 embarcações. Das 15h às 17h acontece o momento de acolhida das delegações no palco principal onde haverá uma grande concentração de pessoas para a abertura da Cúpula dos Povos entre 17 e 19h. O primeiro dia será encerrando com um grande show cultural no palco principal popular. 📍No dia 13 de novembro, (quinta-feira), começam as atividades temáticas articuladas em torno dos eixos de convergência do evento. Oficinas, rodas de diálogo, plenárias e trocas de experiências serão conduzidas com base nos saberes territoriais, fortalecendo a conexão entre luta climática e justiça social. Essa etapa inicial das discussões tem como objetivo identificar os principais desafios enfrentados pelas comunidades e mapear as soluções já existentes nos territórios. Das 8h30 às 12h haverá as plenárias mundiais sobre os eixos (1, 2 e 3) Soberania, Reparação e Transição, respectivamente. Teremos também a Cúpula das Infâncias e a Feira Popular. No período da tarde, entre 14 e 18h, atividades de Enlaces dos Eixos de Convergência e à noite, das 19h às 22h, atividades culturais, sessões informativas sobre as negociações e mobilizações. 📍O terceiro dia 14 de novembro (sexta-feira), será dedicado à consolidação das propostas surgidas nas atividades anteriores. Esse é o momento de síntese política, no qual os conteúdos levantados pelos movimentos começam a ser organizados em contribuições que irão compor a declaração final. Grupos de trabalho e assembleias temáticas serão responsáveis por dar corpo às reivindicações e prioridades que serão apresentadas ao mundo. Assim, das 8h30 às 12h, os trabalhos retornam com o Eixo 4 – Internacionalismo; Eixo 5 – Cidades e Eixo 6, Mulheres. Haverá Intervenções culturais ao longo das plenárias e a Cúpula das Infâncias. No período da tarde, das 14h às 16h, atividades Enlaces dos Eixos de Convergência, Assembleia dos Movimentos Sociais, Seminário “Saúde e Clima”. E das 16h às 18h – Plenária final – apresentação das sínteses dos eixos e consolidação da declaração dos Povos. 📍Em 15 de novembro (sábado) acontece a grande marcha popular, ato de caráter internacional e público. Essa mobilização reunirá povos originários, quilombolas, juventudes, trabalhadores urbanos e rurais, organizações feministas, coletivos ambientais, sindicatos e redes internacionais. A marcha expressa a voz coletiva da Cúpula e marca o ponto mais
Unidade na luta: atingidos de 42 países unificam demanda por justiça climática e direitos dos atingidos

Contexto: vivências amazônicas precedem a construção da Carta Popular A mobilização histórica por Justiça Climática Global em Belém ganhou força ainda maior nos dias que antecedem a abertura oficial da Cúpula dos Povos. A agenda incluiu uma série de vivências amazônicas, conectando representantes de centenas de organizações que estarão na Cúpula dos Povos, com suas realidades locais, em um processo de ambientação e troca que antecede a produção política da Carta que será entregue à Cúpula. Essa imersão ressalta o entendimento central dos movimentos de que a crise climática não é uma questão técnica, mas sim política e social. Conforme reiterou Eduardo Giesen Amtmann, porta-voz do Eixo 4 da Cúpula dos Povos e professor de Ecologia Política, em alinhamento com a postura das organizações, “a crise climática não é um fenômeno natural, mas o resultado de um sistema que explora o planeta e concentra riqueza, o capitalismo extrativista. As temperaturas em média na superfície da Terra são as mais altas registradas na história por culpa deste sistema político e econômico. Por isso, rejeitamos veementemente as ‘soluções capitalistas’, como os mercados de carbono, e exigimos que a resposta seja focada no valor ético da vida e da natureza, e não em colocar preço sobre ela.” É neste espírito de urgência e rejeição a soluções falsas que o IV Encontro Internacional dos Atingidos por Barragens e Crise Climática, organizado pelo MAR e o MAB, tem mergulhando na consolidação de sua agenda para a Cúpula. Articulação global para a construção da carta política O quarto dia do Encontro irrompeu nesta segunda-feira (10) com o objetivo claro de produzir a carta política que centralizará as demandas urgentes dos atingidos por barragens e pela crise climática. Um momento de cultura e política ao som da banda Mistura Popular preparou o público para o Trabalho em Grupos sobre as Lutas de Resistência e Conquistas dos Atingidos. Em uma dinâmica pré-debate carregada de significado, representantes de todos os continentes trouxeram símbolos e objetos de suas lutas, tecendo um mapa vivo de identidades e resistência territorial. A urgência do debate foi chancelada pela presença de Pedro Arrojo, Relator Especial da ONU para os Direitos Humanos à Água Potável e ao Saneamento. Arrojo, cuja atuação mais recente incluiu a apuração de violações no Peru (entre outros cenários de conflito hídrico e violação de direitos), ecoou a denúncia global feita pelo Movimento contra a sistemática exploração de rios e a violação de direitos humanos promovida por megaprojetos. Condensando lutas e denúncias globais: a unanimidade das mazelas O Encontro seguiu com a condensação das experiências e lutas do movimento internacional. Representantes de diversos continentes – incluindo delegados da República Democrática do Congo, Tailândia, Palestina, Cuba, México e Indonésia – foram distribuídos em cinco grupos de trabalho para documentar e sistematizar as lutas e estratégias de resistência. O debate nos grupos revelou unanimidade nas mazelas sofridas, centralizadas na privatização da água, na exploração de minérios e na construção de megaprojetos. Essa “hidro-necropolítica” tem resultados perversos e ironicamente contraditórios. Sobre esse aspecto, Ana Valdez, ativista mexicana atingida, ressalta que em seu país, o povo passa por “um processo de centrifugação de direitos”. Grandes corporações represam os rios que resultam às comunidades escassez hídrica e contaminação, quando não a morte. A mesma realidade foi relatada por Malee Hettarakun, da Indonésia, ao descrever a violência corporativa em seu território, enquanto Augustin Louis Lokorbo, da República Democrática do Congo, destacou a importância da troca: “Nossos opressores atuam globalmente, e nós, os atingidos, temos que responder à altura. É apenas por meio dessa troca intercontinental de saberes e estratégias que podemos combater os mecanismos usados pelas empresas e pelos governos para violar nossos direitos.” A sistematização dessas denúncias e experiências de luta é a base para a consolidação do Movimento Internacional e para a formulação da Carta que será apresentada na Cúpula dos Povos. 📍Programação 11/11/25 – TERÇA-FEIRA 9h – Relato dos trabalhos em grupos sobre as lutas e resistência dos atingidos. 15h – Apresentação da construção do Movimento Internacional 20h – Confraternização e noite de fortalecimento da luta transformadora Foto: Joyce Silva_MAB
Barqueata da Cúpula dos Povos leva mais de 200 embarcações à Baía do Guajará, em Belém, em ato histórico pela Amazônia e pela justiça climática

Cerca de 5 mil pessoas de 60 países são esperadas para percorrer os rios que cercam a capital da COP30 em um grandioso ato político sobre as águas. Uma das embarcações trará lideranças como Raoni na “Caravana da Resposta”. Belém (PA) — No próximo 12 de novembro, a partir das 9h da manhã, mais de 200 embarcações transportando cerca de 5 mil pessoas devem se reunir na Baía do Guajará, em frente à capital paraense, em um dos momentos mais simbólicos da Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30. A Barqueata da Cúpula reunirá caravanas que partiram de outros municípios, Estados e países para denunciar falsas soluções climáticas e anunciar que a resposta para um mundo sustentável é o povo das águas, das florestas e das periferias que resiste com suas práticas coletivas, agroecológicas e ancestrais. A barqueata começará na Universidade Federal do Pará (UFPA), território da Cúpula dos Povos, e seguirá margeando o rio Guamá que depois vira rio Guajará para chegar até a Vila da Barca, área de palafitas que é um enclave social, pois, parte das moradias vive sem nenhum saneamento. São décadas de resistência dos moradores à especulação imobiliária e falta de atenção do poder público. Na preparação da cidade para a COP 30, a Vila da Barca receberia uma estação de tratamento do esgoto de bairro de classe média embelezado nos últimos meses para compor a paisagem turística. Assim, a área tornou-se um exemplo das contradições das conferências que tomam decisões equivocadas, ignorando os mais impactados pelos eventos climáticos extremos. Essas contradições serão expostas em faixas, cartazes que ornamentarão barcos de grande e pequeno porte em um percurso de 7 milhas náuticas. A expectativa é sair de quatro portos próximos à UFPA e navegar por cerca de duas horas, tempo médio que leva em consideração a força da maré. “Estamos alinhados e achamos que vai ser histórico!”, diz Iury Paulino, membro da Comissão Política da Cúpula dos Povos e coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). O barramento dos rios está entre as ações corporativas e infraestruturas denunciadas por causarem impactos que cada vez mais contribuem para a crise climática como mudança no curso das águas, assoreamentos, extinção de espécies, inundações de áreas que antes eram de floresta e expulsão de comunidades guardiãs de práticas de preservação. Esses impactos também são enfrentados pelos pescadores que mantém histórica relação cultural com o mar. Ribeirinhos e pescadores de todo o mundo sofrem diretamente com as contaminações dos rios e áreas costeiras causadas pela exploração mineral e pelos vazamentos de produtos químicos. No Brasil, os rompimentos das barragens da Vale em Mariana (2015) e Brumadinho (2019) provocaram centenas de mortes, destruição de comunidades e graves danos ambientais, contaminando rios e ecossistemas. No Equador, o rompimento do oleoduto SOTE, operado por uma estatal, fez vazar petróleo no Esmeraldas River, em março de 2025, e despejou mais de 25.000 barris de crude, contaminando água potável, rios e comunidades costeiras. Por isso, os movimentos e organizações da Cúpula dos Povos se unem para fazer ecoar sobre as águas o grito de denúncia contra decisões da COP que mantém esse modelo de exploração dos territórios. E contra as corporações que atuam fortemente nos espaços de decisão das Conferências para impedir que metas mais ousadas de redução da exploração dos bens naturais, mitigação e reparação dos danos estejam definidas nas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são as metas de cada país para reduzir emissões de gases de efeito estufa e se adaptar às mudanças climáticas, conforme estabelecido no Acordo de Paris. Raoni – Entre os barcos confirmados para a barqueata está a Caravana da Resposta, mobilização que percorre mais de 3 mil quilômetros entre Sinop (MT) e Belém (PA) com mais de 300 lideranças indígenas, ribeirinhas, quilombolas e camponesas. Com o apoio da Cúpula dos Povos, a mobilização organizada pela Aliança Chega de Soja, articulação com cerca de quarenta organizações brasileiras e internacionais, saiu de Santarém neste domingo, 09. A Caravana refaz o caminho do chamado “corredor da soja”, denunciando os impactos do agronegócio e das grandes obras de infraestrutura — como a Ferrogrão e as hidrovias do Arco Norte — sobre territórios e modos de vida tradicionais. A Ferrogrão é um projeto de ferrovia de 933 km planejada para ligar Sinop (MT) a Miritituba (PA), com o objetivo de escoar grãos (principalmente soja e milho) do Centro-Oeste brasileiro pelo Arco Norte. Mas a sua execução ameaça unidades de conservação, terras indígenas e intensifica o desmatamento na Amazônia. Durante o ato, devem embarcar lideranças históricas da luta indígena no Brasil, como o cacique Raoni Metuktire, a liderança Alessandra Korap Munduruku e representantes dos povos Kayapó, Panará, Borari, Tupinambá, Xipaya, Arapiun, Huni Kuin e Kayabi, entre outros. A presença desses líderes simboliza o elo entre os povos do Xingu e do Tapajós, regiões onde o avanço da soja e da infraestrutura de exportação tem causado destruição ambiental e violações de direitos. “Os povos são a resposta” Pedro Charbel, da Aliança Chega de Soja, disse que a Caravana sintetiza o que o movimento chama de denúncia e anúncio. “A nossa luta é contra esses portos corporativos, contra as hidrovias e contra a Ferrogrão, mas a gente também tem a resposta. A resposta é a agroecologia, é a comida boa sem veneno, é a solidariedade com o povo, são as cozinhas solidárias, é a distribuição de comida de graça porque comida é direito, não é mercadoria. A resposta é a infraestrutura que vem do povo e não a que beneficia bilionários do agronegócio. A resposta são os territórios vivos, as terras demarcadas, a floresta em pé e o rio limpo, com peixe saudável — não o rio contaminado de mercúrio e soja.” A Cúpula dos Povos, que reúne mais de 1,2 mil movimentos, organizações e redes do Brasil e do exterior, reforça que a Barqueata representa o espírito da conferência. “Não é só um ato, é um manifesto fluvial. As águas da Amazônia estão trazendo as vozes que o mundo precisa ouvir: as
A oficialização da luta dos povos e o surgimento de um grande movimento global

O ponto central da agenda do 5⁰ dia do IV Movimento Internacional de Comunidades Atingidas por Barragens e Crise Climática é a oficialização e a apresentação da consolidação desta articulação, que une as bases do MAR e do MAB e mobiliza organizações e suas lideranças de 42 países e 5 continentes. O dia representa um salto estratégico na luta. A formalização do movimento global não só unifica as táticas de resistência contra os megaempreendimentos em diferentes continentes, mas também projeta o tema da reparação integral e da soberania territorial como pauta inegociável em arenas internacionais como a Cúpula dos Povos. Essa unidade é a resposta popular à atuação transnacional das corporações e dos modelos de desenvolvimento predatórios que exploram a água, a energia e a vida em escala planetária. O dia é dedicado a sistematizar as lutas e forjar a unidade de ação do Movimento Internacional de Atingidos, com foco no abastecimento e na soberania dos povos. Programação do dia 11/11: Construção e fortalecimento 9h – Relato dos trabalhos em grupos sobre as lutas e resistência dos atingidos: Sistematização das denúncias e das estratégias de resistência de 42 países, servindo como base para a finalização da Carta Política. 15h – Apresentação da construção do Movimento Internacional – Encontro com a CONAB: Debate sobre a estratégia e os próximos passos para a consolidação da unidade de ação global, com a participação de representantes da CONAB para discutir o papel da Companhia na segurança e abastecimento alimentar. 20h – Confraternização e noite de fortalecimento da luta transformadora: Encerramento do ciclo de debates, preparando as bases para a transição à Cúpula dos Povos. Destaque do painel O debate da tarde contará com a presença de representantes da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), ressaltando o elo entre a luta por terra, água e a produção de alimentos no contexto da crise climática. Estarão presentes a Superintendente Regional da CONAB no Pará Rosanna Costa, Diretor de Operações e Abastecimento da CONAB Brasil Arnoldo Campos e Assessora de Comunicação da CONAB Brasil Karine Fernandes. Transição para a Cúpula dos Povos (12/11) As atividades culminarão na quarta-feira (12), com a Barqueata no Rio Guamá (9h às 14h), o primeiro grande ato popular que marcará a abertura da Cúpula dos Povos na COP30. Foto: Samara Silva/EficazPress
Cúpula dos Povos divulga programação com barqueata, plenárias, marcha global e encerramento político em Belém.

Belém se prepara para receber uma intensa programação popular entre os dias 12 e 16 de novembro, durante a realização da Cúpula dos Povos. O calendário de atividades foi apresentado em coletiva de imprensa na Casa da Cúpula dos Povos, em Belém, e detalhado por Beatriz Moreira, da secretaria operativa da Cúpula, que explicou como será a organização dos dias de evento. A abertura da Cúpula acontece na quarta-feira, 12 de novembro, logo pela manhã, com a realização de uma grande barqueata. A atividade, definida como um manifesto realizado por barcos, terá início às 9 horas, partindo da Universidade Federal do Pará e de outros portos ao longo da orla de Belém. Durante o percurso, serão levadas mensagens sobre a resposta das águas e a confluência da natureza, reafirmando o sentido amazônico e popular do encontro. A barqueata simboliza a centralidade dos rios para a vida na cidade. Belém, marcada por seu caráter insular e pela presença de ilhas e cursos d’água, celebra o rio como elemento estruturante de uma Cúpula dos Povos realizada na Amazônia. À noite, a programação segue com a cerimônia oficial de abertura e atividades culturais. Os dias 13 e 14 concentram o núcleo central da agenda política. Pela manhã, acontecem as grandes plenárias organizadas a partir dos eixos de convergência da Cúpula. No período da tarde, são realizadas as atividades enlaçadas, uma proposta de ações paralelas construídas coletivamente por diversas organizações, em diálogo direto com os eixos e com base em processos colaborativos. No final da tarde e início da noite do dia 14, ocorre a plenária de síntese, momento dedicado à sistematização da Declaração dos Povos, também chamada de Tratado dos Povos. O documento reúne as posições políticas construídas ao longo da Cúpula e precisa estar finalizado e traduzido para circular em diferentes fusos horários, permitindo que mobilizações aconteçam simultaneamente em várias partes do mundo. O dia 15 de novembro será marcado pelo Dia Global de Ação. Em Belém, a mobilização se materializa em uma grande marcha popular. A concentração está prevista para as 8 horas da manhã, no Mercado de São Brás. A partir dali, o percurso segue pelas avenidas José Bonifácio e Duque de Caxias,percorre a Travessa Lomas Valentinas e termina na Aldeia Cabana, em um trajeto de aproximadamente quatro quilômetros. A organização informou que o percurso está sendo apresentado e discutido com as autoridades e forças de segurança, reforçando a importância de que todos tenham clareza sobre o local e o horário de concentração. O encerramento da Cúpula ocorre no sábado, 16 de novembro. Pela manhã, está prevista uma cerimônia com audiência pública junto à presidência da COP e outras autoridades, para a entrega formal da Declaração dos Povos. Segundo a organização, o ato simboliza o destino político do processo e a exigência de que os tomadores de decisão recebam diretamente, no território amazônico, o chamado construído pelos povos. À tarde, a programação se encerra com a realização do Banquetaço, atividade coletiva que marca o fechamento da Cúpula com partilha, convivência e celebração da luta.
”Não é liderança climática. É hipocrisia climática”: Cúpula dos Povos denuncia países ricos com “mãos vazias” e exige reparação histórica

Coletiva de imprensa, realizada na Casa da Cúpula dos Povos para avaliar a Cúpula dos Líderes que finalizou nesta sexta-feira critica falta de compromisso com o fim dos combustíveis fósseis, alerta para a captura de mecanismos de proteção da Amazônia pelo mercado e reafirma a agenda de luta em seis eixos temáticos. A articulação lançou uma nota com posicionamento político BELÉM, PARÁ (BRASIL), 7 de Novembro de 2025 – Em um contraponto direto à Cúpula de Líderes da COP30, os movimentos sociais e organizações populares que compõem a Cúpula dos Povos realizaram uma coletiva de imprensa nesta sexta-feira (7) para demarcar sua posição e denunciar a inércia dos países do Norte Global. O evento ocorreu na Casa da Cúpula dos Povos, Belém (PA), e reuniu representantes da Articulação Climática Global (CAN Internacional), do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), da Campanha Global por Justiça Climática (DCJ) e da Via Campesina (LVC). A COP da “verdade vazia” e a injustiça do financiamento A crítica central foi direcionada à ausência de compromissos reais por parte das nações ricas. Jacobo Ocharan (CAN Internacional/México) destacou a expectativa sobre a COP30 ser a “COP da Verdade”, mas lamentou a falta de ação concreta: “Até o momento há pouca verdade e muito vazio de compromisso por parte dos países historicamente responsáveis pela crise climática.” Ocharan denunciou que os países ricos chegaram “com as mãos vazias, sem planos nacionais (NDCs) realistas nem compromissos concretos com a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis.” Transição energética injusta e racismo ambiental A representante brasileira Isabely Miranda (MAM/Brasil) questionou o conceito de “transição energética” promovido pelos governos, caracterizando-o como uma mera “expansão energética” imposta de cima para baixo. A militante do MAM criticou o modelo de transição baseado na exploração de minerais e a disparidade entre hemisférios. Ela ressaltou que as soluções devem partir das comunidades, pedindo compromisso real das corporações que causam a degradação: “As grandes mineradoras, as indústrias e o agronegócio precisam parar de nos matar e de matar a natureza.” Reparação, não caridade: A crítica à hipocrisia climática O ativista Tyrone Scott (DCJ/Reino Unido/Jamaica) trouxe a voz dos pequenos países insulares, lembrando o recente furacão Melissa na Jamaica e denunciando a dívida e a exploração histórica. Scott foi incisivo ao condenar a hipocrisia das nações que lucraram com o colonialismo e a escravidão: “O que o mundo precisa não é de caridade, mas de justiça.” Ele criticou o uso de mecanismos de mercado e condenou governos que expandem a exploração de combustíveis fósseis: “Não é liderança climática. É hipocrisia climática.” Essa mensagem foi reforçada por Jyoti Fernandes (La Via Campesina/Reino Unido/Índia): “Reparações, não caridade.” A LVC defende um financiamento climático público, rejeitando o modelo de financiamento privado, condicionado e de caráter neocolonial, e afirma: “Acreditamos na vida. E é por ela que lutamos.” Convergência de lutas e eixos estratégicos Beatriz Moreira (Secretária Operativa da Cúpula dos Povos/MAB) relembrou que o processo da Cúpula iniciou-se há dois anos e hoje reúne mais de 1.100 organizações, iniciando em Belém em solidariedade às vítimas de violência no Pará. A Cúpula dos Povos está organizada em seis eixos estratégicos que guiam suas plenárias e mobilizações: Justiça Climática e Reparação. Transição Justa, Popular e Inclusiva. *Soberania Alimentar. Direitos Territoriais e das Florestas.* Internacionalismo e Solidariedade. Perspectivas Feministas e dos Povos nos Territórios. Beatriz finalizou reforçando a autonomia e a capacidade de organização dos movimentos: “Se existe uma solução para o desequilíbrio que vivemos, ela está em nós — nos povos que habitam e defendem os territórios.” Próximos passos A Cúpula dos Povos terá uma intensa programação a partir do dia 12, focada em plenárias de discussão sobre os seis eixos de atuação, construção da Carta dos Povos, barqueata, marcha por Justiça Climática, banquetaço e audiência com a presidência da COP 30. Foto:Samara Silva/EficazPress
Flotinha pela Mudança “Carbono Zero” chega a Belém para desafiar o lobby fóssil da COP 30.

BELÉM, PA – Uma frota de seis veleiros, batizada de Flotilla for Change (Flotilha pela Mudança), está a caminho de Belém, trazendo uma delegação de cerca de 50 ativistas, cientistas e delegados de diversas partes do mundo. A mobilização transcontinental, que tem como navio-bandeira o Sababa (que partiu da Nova Zelândia e navegou 17.500 milhas), é um ato de protagonismo popular e de descarbonização em prática, contrastando com o alto impacto de carbono da aviação que movimenta a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30). A Flotilha, organizada em solidariedade aos Eixos de Convergência da Cúpula dos Povos, materializa a urgência da Justiça Climática e a defesa dos territórios e “maretórios”. A viagem, que incluiu paradas em Santa Cruz de Tenerife e Mindelo, Cabo Verde, trouxe para a Amazônia vozes cruciais do Sul Global, como a da ativista Melody Barry-Yobo, de Ogoniland, Nigéria, que uniu a luta contra a extração de combustíveis fósseis no Delta do Níger à causa amazônica. O Confronto de Narrativas Ao chegar a Belém, a missão da Flotilha é clara: disputar a narrativa da conferência oficial, que, segundo ativistas, é dominada por interesses corporativos. “Nós queremos fazer frente à indústria fóssil. Ela estará novamente na Conferência, fará um lobby massivo e por isso é tão importante que o movimento global pela Justiça Climática também esteja lá,” afirma Katharin Henneberger, ex-membro do parlamento alemão e tripulante do Flotilla 4 Change. A iniciativa dos ativistas de viajar em embarcações serve como um laboratório flutuante e uma demonstração pública de que a liderança climática começa com a prática, rejeitando o transporte de alta emissão. Ciência Cidadã e Diversidade a Bordo A bordo dos veleiros, a tripulação opera como um laboratório de ciência cidadã, realizando pesquisas sobre a saúde dos oceanos, incluindo o monitoramento de plástico e a coleta de dados de vida selvagem e qualidade da água. A composição da tripulação é um reflexo direto do compromisso da Cúpula com a diversidade: a bordo estão trabalhadores da terra e do mar, ativistas antirracistas e LGBTQIA+, cientistas, delegados e jovens de diversas nacionalidades. A Flotilha exige que seus membros passem por treinamentos obrigatórios de Sensibilidade Cultural e Antirracismo, reforçando que a luta climática é inseparável das pautas sociais. Agenda em Belém A Flotilha estará em Belém até o final de novembro e tem uma agenda intensa na Cúpula dos Povos: 13 a 14 de novembro: Participação na programação da Cúpula dos Povos, com foco no Eixo “Territórios Vivos e Maritórios, Soberania Popular e Alimentar”. 14 de novembro: Realização de um Evento de Mesa Redonda e Escuta/Aprendizagem a bordo do barco Rainbow Warrior, atracado na Universidade Federal do Pará (UFPA), Rua Augusto Corrêa, 01. 15 de novembro: Adesão massiva à Marcha Popular de encerramento da Cúpula.
Mobilização histórica em Belém por justiça climática global tem intensa programação paralela à COP 30

Organizada há mais de dois anos e construída coletivamente por cerca de 1.100 movimentos sociais, organizações comunitárias, entidades territoriais e redes internacionais de defesa dos direitos humanos e da justiça climática, de 62 países, a Cúpula dos Povos na COP30 se apresenta como uma resposta autônoma e popular à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30). O evento ocorrerá de 12 a 16 de novembro próximo, em Belém/PA, e nasce do entendimento de que a crise climática não pode ser tratada apenas como um problema técnico ou diplomático, mas como uma questão profundamente social, vivida nas comunidades e diretamente relacionada às desigualdades históricas que afetam povos originários, populações tradicionais, juventudes periféricas, trabalhadores/as do campo e da cidade. Ao contrário da Conferência oficial, estruturada em espaços de negociação dominados por governos e corporações, a Cúpula dos Povos se estabelece num território político autônomo, direcionado à construção coletiva de soluções elaboradas a partir das experiências concretas de quem enfrenta cotidianamente enchentes, secas, contaminação industrial, avanço do agronegócio, expulsões territoriais e violações ambientais. Por isso, a Cúpula é apresentada não como um evento paralelo, mas como o verdadeiro palco popular da justiça climática. A mobilização surge em um momento de forte cobrança internacional sobre o papel do Brasil na presidência da COP 30. Depois de uma COP 29 considerada decepcionante pelos movimentos sociais, sobretudo, pela ausência de metas vinculantes de financiamento climático e pela ampla margem dada a empréstimos que podem aumentar a dependência econômica dos países mais vulneráveis, cresce a expectativa de que o país possa exercer um protagonismo mais coerente com sua importância socioambiental. Os movimentos sociais defendem que o Brasil só poderá liderar a agenda internacional se reconhecer e dialogar diretamente com os povos que protegem a Amazônia e demais biomas. Desde 2023, mais de 500 organizações já assinaram a carta política da Cúpula, que foi entregue ao presidente Luiz Inácio LULA da Silva, ao Itamaraty e aos órgãos operacionais ligados à COP 30. O documento destaca que “países tomadores de decisão têm se omitido ou apresentado soluções absolutamente ineficientes”, ao mesmo tempo em que “investimentos que alimentam as mudanças climáticas têm crescido”, enquanto direitos territoriais seguem ameaçados. A experiência da Cúpula dos Povos se inspira na mobilização realizada durante a Rio+20, em 2012, quando mais de 20 mil pessoas construíram um espaço de formulação popular que tensionou a agenda oficial das Nações Unidas e consolidou uma referência histórica de resistência global. Agora, porém, a dimensão é ainda maior: a expectativa é reunir 30 mil pessoas em um encontro guiado por seis eixos centrais que estruturam as convergências políticas e territoriais do evento. O que a Cúpula dos Povos na COP30 pauta? Os eixos abrangem desde a defesa da soberania alimentar e dos territórios até a transição energética justa, o enfrentamento ao poder corporativo, a democratização do acesso aos bens comuns e a luta contra o racismo ambiental. Neles também está o compromisso de promover soluções climáticas baseadas nos modos de vida tradicionais, reafirmando que as respostas à crise estão nos territórios, e não nos mercados financeiros ou nos laboratórios corporativos. Sara Pereira, da FASE Programa Amazônia, resume o sentido dessa centralidade: “Não é possível pensar numa COP 30 em que a discussão da pauta climática não seja pautada na justiça climática. Não haverá transição justa enquanto não houver direitos garantidos aos povos tradicionais”. Para ela, os territórios já produzem a solução concreta que o mundo procura: “Esses territórios manejam a floresta, manejam as águas de forma equilibrada”. Ayala Ferreira, do Movimento Sem Terra (MST), aponta para a necessidade de denunciar falsas soluções, mas apontar caminhos para soluções concretas vindas dos povos e territórios. “Temos reforçado que a solução vem dos territórios, daqueles que lidam com o campo, as florestas e as águas desde os seus modos de vida. Por isso, para além de termos credenciais para atuarmos no setor dos acessos oficiais da COP30, construímos a Cúpula dos Povos como esse espaço plural de escuta e proposições, apontando para soluções verdadeiras, necessárias e urgentes frente à crise climática, como a reforma agrária popular e as amplas iniciativas de reflorestamento, recuperação de nascentes e produção de alimentos saudáveis.” Marcio Astrini, do Observatório do Clima, reforça que a Cúpula cumpre um papel histórico na disputa da narrativa global: “A participação dos movimentos sociais é crucial para disputar a agenda climática e garantir que os recursos sejam investidos corretamente, ajudando a diminuir as desigualdades sociais e não as aumentar”. Yuri Paulino, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), diz que a Cúpula dos Povos está focada na participação direta da sociedade civil e por isso a programação foi construída para fortalecer o protagonismo de quem enfrenta os impactos da crise climática no cotidiano, e não daqueles que apenas negociam soluções no plano institucional. Crianças e adolescentes também se mobilizam para discutir temas durante a COP-30 Pela primeira vez desde a realização da primeira Cúpula dos Povos, em 1992, crianças e adolescentes de organizações da sociedade civil, estarão concentrados no campus Guamá da UFPA. Terão um espaço de protagonismo dentro da programação para opinarem sobre os temas que serão debatidos na COP-30, com cirandas, rodas de conversa, música, danças e outras atividades com metodologia adaptada para crianças desde a primeira infância até a adolescência. Salomão Hage, professor da Universidade Federal do Pará e coordenador-geral da Cúpula das Infâncias, explica que o propósito de realizar um movimento específico com e para as crianças surgiu do consenso de que não é possível discutir temas como justiça social, mudanças climáticas, racismo e justiça ambiental e outros assuntos da agenda do clima sem garantir a voz e a participação de quem, de fato, terá seu futuro e desenvolvimentos mais afetados por qualquer decisão tomada na atualidade. “O movimento da infância precisa estar envolvido no debate autônomo feito durante a Cúpula dos Povos. E as crianças e adolescentes devem participar de modo livre e sem intermediários.” Programação da Cúpula dos Povos na COP30 O início das atividades acontece no dia 12 de
Cúpula dos Povos e movimentos entregam ofício ao MPF contra uso da GLO, risco de militarização da COP30 e ameaça à participação democrática

A Cúpula dos Povos junto a movimentos e organizações da sociedade civil entregou ofício ao Ministério Público Federal em que manifesta “profunda preocupação” com o uso da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) durante o período de realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será sediada em Belém. Teme-se a militarização do evento e riscos à livre participação popular. O ofício foi entregue ao Procurador-Chefe dos Direitos do Cidadão, Nicolao Dino durante evento de Pré-COP do Ministério Público Federal (MPF), realizado nesta segunda-feira (20) em Belém. O documento tem como título “Sobre a indesejada militarização da COP30 e a necessária garantia de participação da sociedade civil e movimentos sociais”. A entrega foi realizada por representantes da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – Núcleo Pará (ABJD/PA), Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e Terra de Direitos. O documento expressa preocupação com a iminente decretação de GLO durante a COP30, um instrumento de exceção que autoriza o uso das Forças Armadas em situações excepcionais de grave perturbação da ordem pública. O instrumento, formalizado pela Lei Complementar nº 97/1999, tem origem em práticas adotadas durante o regime militar, quando as Forças Armadas eram mobilizadas para controle da ordem interna. Para as organizações, o eventual uso caracterizaria uma indevida militarização de um evento civil e ambiental, colocando em risco os direitos fundamentais de manifestação, reunião e livre expressão e a participação democrática da sociedade civil. O documento também busca resguardar a segurança de defensores e defensoras de direitos humanos e garantir condições seguras para as mobilizações populares durante o evento. O ofício destaca que o uso da GLO em eventos civis é juridicamente inadequado, desnecessário e desproporcional, conforme entendimento do Supremo Tribunal Federal na ADI 6457, que restringe sua aplicação a situações excepcionais e apenas após o esgotamento dos mecanismos ordinários de segurança pública. O texto reforça que não há ameaça concreta à ordem pública que justifique o uso das Forças Armadas na COP30 e que a preocupação das autoridades parece estar voltada aos protestos sociais e não à segurança pública. “As manifestações são instrumentos legítimos de fortalecimento da democracia e da luta climática, e não ameaças à ordem”, afirma o documento. As entidades alertam ainda que o Brasil deve garantir que a COP30 ocorra em ambiente de respeito, inclusão e liberdade, e que a militarização de um evento dessa natureza contraria os princípios constitucionais e internacionais de direitos humanos. Histórico de repressão e dever de não repetição As organizações lembram que o Brasil tem um histórico de criminalização de movimentos sociais e repressão violenta a protestos, especialmente na Amazônia, como o massacre Eldorado dos Carajás, a construção de Belo Monte, repressões a quilombolas, estudantes e defensores ambientais. O texto também menciona a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Antônio Tavares Pereira, que condenou o Estado brasileiro por uso desproporcional da força, determinando, entre outras medidas, o dever de não repetição de práticas repressivas e violadoras de direitos humanos. “A militarização não protege a ordem, apenas multiplica a violência e reforça o racismo institucional, atingindo de modo seletivo lideranças negras, indígenas e de comunidades tradicionais”, afirmam as signatárias. Garantia de participação O ofício reafirma que o objetivo de sediar a COP30 na Amazônia é dar visibilidade aos povos e comunidades que enfrentam diretamente os efeitos da crise climática e não isolar a população local das decisões globais sobre o futuro do planeta. O documento repudia “qualquer cordão de isolamento militar que limite a interação entre os diversos atores e atrizes que estarão em Belém”.
