COP30 entra na reta final sob pressão global por justiça climática e mudanças estruturais. Membros da comissão política fazem pressão durante abertura oficial

Belém (PA), 17 de novembro de 2025 – As negociações da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30) atingiram seu ponto decisivo em Belém, com a abertura do Segmento de Alto Nível e a chegada de ministros. Representantes da Cúpula dos Povos agora atuam dentro do espaço oficial para fazer valer a declaração aprovada pelos movimentos e organizações. Na abertura, Maureen Santos e Rud Rafael, da Fase e MTST, respectivamente, entregaram a camisa da Cúpula para o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, como forma de visibilizar ainda mais a luta. Se fora da COP, no espaço autônomo da Cúpula dos Povos, houve a forte pressão das ruas, dentro da Conferência, o momento é marcado por apelos urgentes para que os países avancem de forma concreta e pela pressão histórica de movimentos sociais exige que os resultados priorizem a justiça popular e enfrentem as causas sistêmicas da crise. Apelo por ações imediatas e fim das obstruções O segmento de Alto Nível foi iniciado com um claro chamado à responsabilidade. O secretário-executivo da ONU para Mudança Climática, Simon Stiell, enfatizou a profunda consciência dos negociadores sobre o que está em jogo. Ele foi taxativo ao alertar que “não há tempo a perder com atrasos táticos ou obstruções”, solicitando que as questões mais complexas fossem resolvidas sem postergação. A presidente da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, reforçou que o dinheiro necessário para a ação climática existe, mas precisa ser redirecionado. Ela destacou que, no último ano, nações em desenvolvimento desembolsaram cerca de US$ 1,4 trilhão no serviço da dívida externa, um montante que poderia ser vitalmente aplicado em mitigação, resiliência e energia limpa. Isso reforça o apelo para o cancelamento da dívida dos países em desenvolvimento. Transição da negociação para a implementação O Brasil, como país anfitrião e presidente da COP30, defendeu que o evento inicie uma nova fase global: a transição de um regime de negociação para um regime de implementação e, com isso, o compromisso de cumprir as metas estabelecidas. O presidente da COP30, embaixador, André Corrêa do Lago, informou que a agenda de negociações será estendida, incluindo sessões noturnas, para finalizar dois pacotes de decisões essenciais. CÚPULA DOS POVOS: Pressão democrática por justiça Fora dos muros da conferência oficial, a Cúpula dos Povos — considerada a maior já realizada, com mais de 25 mil participantes e uma marcha que reuniu mais de 70 mil pessoas — formalizou suas demandas. Uma declaração popular, resultado de quatro dias de debates, foi entregue a líderes brasileiros, incluindo a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o presidente da COP30, André Corrêa do Lago. Maureen Santos afirmou que o evento demonstrou um exemplo de democracia e multilateralismo, dando visibilidade aos grupos mais impactados pela crise, que também são os que trazem as alternativas. As principais exigências populares incluem financiamento sem dívida, preocupação com a forma como o financiamento climático está sendo discutido, alertando para o risco de gerar novas “dívidas ecológicas” para o Sul Global; transição justa ampliada com a necessidade de expandir o debate sobre transição justa, para além de apenas energias renováveis, incorporando temas cruciais como soberania alimentar, direitos territoriais e condições de trabalho. PAA é alimentação saudável Durante o evento paralelo, grupos como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), com apoio do Movimento Camponês Popular (MCP), Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), montaram uma operação logística que garantiu que a alimentação das delegações inscritas fosse, por si só, uma declaração política em favor da agricultura familiar, dos povos tradicionais e da transição agroecológica justa. Juntos, organizaram uma “cozinha solidária” que forneceu mais de 300 mil refeições gratuitas, com foco em produtos agroecológicos e culinária amazônica, reforçando a mensagem de esperança e resistência. Assim também garantiram o maior plano já consolidado da Política de Aquisição de Alimentos (PAA).
ENCERRAMENTO DA CÚPULA DOS POVOS

Programação da manhã de hoje, DAS 11H ÀS 12H30 CONVITE AOS JORNALISTAS LOCAL:- TENDA DA PLENÁRIA 1 (na beira do rio, ao lado do vadião) Programação de hoje (16) 9h – 10h : Animação e Mística de Abertura 10h – Leitura da Declaração 10h25 – Entrega da Carta da Cúpula das Infâncias 10h40 – Audiência com a presidência da COP30 11h – Animação e apresentações culturais. 11h20 – vídeo retrospectiva da cúpula dos povos 📍COLETIVA DE IMPRENSA📍 AUDITÓRIO BENEDITO NUNES 11h- coletiva de imprensa com balanço Presenças confirmadas: ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, presidente da COP30, André Correia do Lago, diretora-executiva da Conferência, Ana Toni e Cacique Raoni.
Justiça climática em foco: Cúpula dos Povos na COP30 caminha para mobilização com marcha, carta e ato contra a fome

A Cúpula dos Povos Rumo à COP 30 intensifica sua agenda com a realização de eventos dentro e fora da Universidade Federal do Pará focados na solidariedade internacional aos povos e na pressão por justiça climática, com uma transição energética e ecológica justa, reparação aos danos causados, sobretudo aos povos tradicionais e periferias rurais e urbanas, e financiamento climático justo, direto e público. Os três pontos centrais da agenda que mobilizarão lideranças de 62 países, ativistas dos 5 continentes, líderes indígenas, quilombolas, pescadores, periféricos rurais e urbanos, movimentos sociais, organizações e redes de articulação são a Grande Marcha dos Povos por Justiça Climática (15/11), o Banquetaço e a entrega da Carta dos Povos ao Presidente da COP 30 (16/11), André Corrêa do Lago. A presença do presidente Lula é esperada. Grande marcha dos povos (15/11) A Cúpula dos Povos deverá levar cerca de 30 mil pessoas para as ruas de Belém, capital da COP30, na Marcha Global por Justiça Climática programada para este sábado, 15 de novembro. Este grande ato de rua percorrerá 4,5 quilômetros com povos vindos de diversos países para levar ao mundo mensagens em defesa de soluções reais para a crise climática. Protagonistas das soluções reais, os povos originários, quilombolas, pescadores, juventudes, trabalhadores, homens, mulheres, pessoas trans e crianças mobilizados em uma ampla rede de organizações da sociedade civil marcharão por um objetivo comum: exigir a reparação pelos danos que as corporações e governos causam à sociedade, sobretudo aos povos tradicionais e periféricos ao apostarem em falsas soluções de eliminação ou redução de impactos. A Marcha Global por Justiça Climática reafirma que não há tempo para ilusões. As chamadas soluções de mercado, como créditos de carbono, compensações florestais, geoengenharia e privatização dos territórios, aprofundam desigualdades, permitem que grandes emissores sigam poluindo e deslocam comunidades inteiras em nome de uma “transição” que não passa de maquiagem verde. O documento político da Cúpula dos Povos denuncia que, enquanto corporações lucram com a crise, são os povos dos territórios que menos contribuíram para o aquecimento global quem carregam os impactos mais violentos. São enchentes, secas extremas, perda de biodiversidade, insegurança alimentar e o avanço de projetos extrativistas que violam direitos humanos. Por isso, a Marcha Global por Justiça Climática reivindica que as decisões sobre o futuro do clima sejam tomadas a partir da justiça, da ciência dos povos e da defesa da vida, e não dos interesses econômicos que historicamente capturaram as negociações da ONU. A marcha também ecoará a mensagem de que não haverá justiça climática sem justiça social, defendendo que soluções reais já existem e são construídas diariamente nos territórios com as práticas agroecológicas, manejo comunitário, economia solidária, proteção ancestral da biodiversidade, soberania alimentar e práticas tradicionais de cuidado com as águas e as florestas. A mobilização pretende marcar simbolicamente o encontro entre os povos da Amazônia e delegações de todos os continentes em um chamado global: “Justiça Climática Já – pelo fim das falsas soluções e em defesa das soluções vindas dos territórios”. Entre os eixos defendidos na mobilização estão: * Reparação histórica e responsabilização de países ricos e corporações pelos danos causados; * Fim das falsas soluções que transformam a natureza em ativo financeiro; * Proteção dos territórios e maretórios, demarcação imediata de terras indígenas e quilombolas; * Transição justa, popular e inclusiva, com direitos e escuta garantidos para trabalhadores e comunidades; * Fortalecimento da democracia, enfrentamento ao racismo ambiental e às desigualdades; * Centralidade dos maretórios e territórios das águas, reconhecendo o papel de povos ribeirinhos, pescadores artesanais e comunidades costeiras na defesa da Amazônia e dos oceanos. “Além de lutar pela mitigação, para reduzir a emissão de carbono no nosso mundo, a gente precisa adaptar o sistema de saúde hoje para salvar as pessoas que já estão morrendo”. A frase é do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante sua ida à Cúpula dos Povos, nesta quinta-feira, 14. Ele disse que a nova estratégia do Sistema Único de Saúde, batizada de “Mais Saúde Amazônia Brasil”, deve adaptar o serviço para atender a diversidade dos povos amazônicos que mais sofrem com as mudanças climáticas. O ministro disse que veio, em nome do governo Lula, trazer duas grandes notícias relacionadas ao enfrentamento às mudanças climáticas. Primeiro, a decisão da COP30 de ter a saúde como um tema oficial da Conferência. Segundo, da criação do “Plano de Ação Belém”, que tem como ordem, adaptar os sistemas de saúde de todo o mundo para as mudanças climáticas. Esse plano é pensado, sobretudo, para cuidar das populações que mais sofrem com as mudanças climáticas que estão na Amazônia, que são as mais vulneráveis do mundo, do sul global. Para o ministro, as ações de mitigação são importantes, mas as mudanças climáticas já matam e adoecem pessoas hoje, além de destruir unidades de saúde, como aconteceu na semana passada no Paraná, com o ciclone que foi decorrente das mudanças climáticas. “Então, além de lutar pela mitigação, para reduzir a emissão de carbono no nosso mundo, a gente precisa adaptar o sistema de saúde hoje para salvar as pessoas que já estão morrendo. O plano de ação Belém é isso, é uma ação de adaptação do serviço de saúde em todo o mundo para cuidar da população. Ayala Ferreira – Coordenação Nacional do Movimento Sem Terra (MST) “Nós, do MST, marchamos porque sabemos que a luta pela terra, pela água e pela comida de verdade é a mesma luta por justiça climática. Os povos dos territórios já provaram que existem soluções reais para enfrentar a crise, enquanto governos e corporações insistem em empurrar falsas promessas que só aumentam a fome, expulsam comunidades e destroem a natureza. Marchamos em solidariedade internacional, unindo trabalhadores do campo e da cidade, povos da Amazônia e companheiros de todo o mundo, para afirmar que a vida não é mercadoria e que a saída está na força dos territórios. É por isso que estaremos nas ruas de Belém no dia 15: porque sem justiça social, não existe justiça climática.” Ivan Gonzales – Coordenação Política da Confederação Sindical
Lideranças sociais e participantes da Cúpula dos Povos na COP 30 discutem futuro climático e unificam lutas globais

BELÉM (PA) – A discussão sobre o futuro climático e social ganhou destaque no Eixo 3 da Plenária da Cúpula dos Povos, com a participação de importantes líderes que defendem uma transformação radical nos modelos econômicos vigentes. O debate reuniu perspectivas globais e de base, focadas na desconstrução do sistema de exploração e comercialização de recursos naturais e na garantia de direitos para os povos do Sul Global. Exigência de transformação sistêmica e democrática Fernando Tormos-Aponte, sociólogo político, pesquisador e membro da Just Transition Alliance (Aliança para a Transição Justa), nos Estados Unidos. articulou a necessidade de uma mudança que vá além das soluções de mercado. Sua fala apontou diretamente para a raiz estrutural das crises: “Nós estamos exigindo ir contra o sistema capitalista, racista e patriarcal que consistentemente prioriza o lucro e a acumulação em detrimento da vida e da natureza. Vemos o impacto desse sistema na privatização de todos os serviços sociais, onde aquilo que não gera lucro não merece atenção. Propomos, portanto, um sistema diferente que não coloque o lucro antes da vida. E para isso temos que ter uma transformação sistêmica. Nós sabemos que essa transformação é um processo que leva a outras pessoas afetadas por essas transições. E essa é uma aposta na democracia.” A perspectiva da classe trabalhadora brasileira foi trazida por Rosalina Amorim, secretária Nacional de Meio Ambiente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que destacou a urgência de democratizar a energia. Rosalina criticou veementemente a forma como a transição energética tem sido implementada, sem garantir o acesso das comunidades mais distantes e penalizando a classe trabalhadora. Ela reforçou que é preciso estar na linha de frente da discussão para garantir que a energia não se torne mais um fator de exclusão e que a classe trabalhadora não seja a principal vítima desse processo. O ativista Farai Maguwu, diretor Fundador do CNRG (Centre for Natural Resource Governance), no Zimbábue somou-se à discussão, trazendo a perspectiva africana da luta contra a exploração e comercialização de recursos naturais e os abusos de direitos humanos ligados a esse comércio. Sua atuação, especialmente na denúncia de crimes relacionados a diamantes no Zimbábue, reforça a necessidade de controlar o capital transnacional e garantir a soberania sobre os recursos naturais. O consenso na Plenária Eixo 3 é que a Transição Justa e Popular deve ser um processo guiado pela democracia, justiça social e pelo abandono de um sistema que coloca o lucro acima da vida. Em comum: a dor une lutas globais na Cúpula dos Povos A Plenária do Eixo 3 da Cúpula dos Povos abriu espaço para um momento de fundamental importância: o compartilhamento direto das dores e injustiças sentidas em diferentes partes do mundo. A força desse momento reside na constatação de que, embora atuem em países e organizações distintas, os ativistas são movidos por um impulso comum: o enfrentamento às mazelas geradas pelo mesmo sistema capitalista e exploratório. As narrativas convergiram para uma única direção, provando que a crise é sistêmica. Maria das Graças Lima Bento, atingida pelo crime da Samarco, VALE e BHP, barragem de Fundão em 2015, em Mariana, trouxe o drama vivido em Barra Longa, Minas Gerais. Ao descrever a devastação da lama que comprometeu os terrenos de plantio e a renda familiar, ela ressaltou que a luta pelos direitos conquistados — como o Programa de Transferência de Renda (PTR) — já dura dez anos, e que sua participação é em solidariedade a todos os atingidos, seja por barragens ou outras formas de exploração. Essa luta contra a negação de direitos encontra eco nas críticas diretas às estruturas de poder. Moira, ativista Mapuche da Patagônia, fez grande apelo pela mudança de paradigma político, defendendo que a terra seja reconhecida como sujeito histórico e social nas discussões democráticas, e não apenas as pessoas. Ela criticou duramente os atuais “modelos de países que negam o direito dos povos indígenas e, sobretudo, que negam a terra”, classificando as nações sul-americanas como “repúblicas coloniais”. A responsabilidade global por essa estrutura foi destacada por Tyrone Scott, da organização britânica War on Want. Scott definiu a Cúpula como um processo coletivo de imaginação e organização dos movimentos da América Latina, África, Ásia e Europa que se recusam a ver a ideia de transição ser “capturada” pelo status quo. Scott chamou a atenção para a responsabilidade histórica e contínua do Norte Global sobre o caos climático e a morte ecológica, defendendo que não pode haver transição justa no Sul sem que as nações e corporações ricas se contabilizem por terem causado a crise. Em essência, as falas, unidas pela mesma motivação, ecoam a crítica feita por Rosalina Amorim (CUT Brasil) em outro momento da plenária: a rejeição a qualquer transformação energética que seja implementada sem garantir o acesso às comunidades mais distantes ou que penalize a classe trabalhadora, reforçando a urgência da democratização da energia e dos recursos. O clamor coletivo é claro: a dor da exploração capitalista é o motor para a construção de uma frente unificada por um futuro justo. Encerramento Com a conclusão das contribuições, o Eixo da Transição Justa, Inclusiva e Popular se encerra, celebrando a Unidade e a Esperança que marcam os espaços da Cúpula dos Povos. O documento de síntese, enriquecido pelos aportes de quase 30 ativistas, seguirá agora para a Declaração Final, e todos os participantes são convidados a se dirigirem à Tenda Solidariedade, onde se encontrarão com os demais eixos em um passo crucial para a consolidação de uma frente unificada de luta. Fotos: Samara Silva/Ag.EficazPress
Mulheres que movem territórios: o feminismo popular como força de resistência na Cúpula dos Povos na COP30

Belém (PA) 13/11/25 — Na Cúpula dos Povos, o debate sobre feminismo popular e resistência das mulheres nos territórios reafirma a força política e transformadora das mulheres que, há décadas, sustentam as lutas por justiça social, climática e ambiental. São elas — indígenas, negras, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras, camponesas, e urbanas — que, de diferentes cantos do país e do mundo, trazem suas vozes e experiências para o centro da discussão sobre o futuro do planeta. Hoje mais do que nunca se sabe que onde tem mulher, tem floresta em pé, tem alimento de qualidade sendo plantado e comunidades resistindo ao avanço das corporações que são as responsáveis pela crise climática. Segundo Eunice Guedes, articuladora do Marcha Mundial das Mulheres (MMM), essa pauta nasce de uma construção coletiva e histórica. “Essa luta vem de longe. Desde o Fórum do Rio de Janeiro, em 1992, quando criamos o Planeta Fêmea, seguimos reafirmando que os direitos das mulheres e das meninas — em toda sua diversidade — são fundamentais na defesa da vida e dos territórios”, afirma. Ela ressalta que as crises climáticas e ambientais atingem de forma desigual as populações, e têm impacto direto sobre as mulheres, meninas e pessoas trans em situação de vulnerabilidade. “Essas tragédias não são acidentais. Elas têm causas estruturais e atingem principalmente as mulheres do Sul global, que perdem seus lares, seus afetos e muitas vezes enfrentam violência nos espaços de abrigo e deslocamento”, alerta. Ediene Kirixi, liderança do povo Munduruku, conduziu pelo espaço da Cúpula dos Povos, a Marcha em Defesa do Território e Contra os Grandes Empreendimentos e o Crédito de Carbono ao lado de caciques, guerreiras e guerreiros, denunciando as ameaças aos territórios e aos modos de vida tradicionais. Em sua fala, ela destacou que o feminismo popular é também uma forma de resistência e de reexistência. “Nossos corpos e territórios são alvos de ataques, mas também são espaços de cuidado e de força. Somos nós que sustentamos a vida nas comunidades, que cuidamos da terra, da água, da casa e dos mais velhos. Falar de justiça climática é falar também de justiça de gênero, de raça e de território”, declarou. Entre as pautas defendidas pelo eixo 6 estão o direito ao território, o livre acesso aos babaçuais e o fortalecimento da agricultura e do extrativismo agroecológico e solidário, como caminhos para garantir autonomia, soberania alimentar e a conservação da sociobiodiversidade. O debate reafirmou que não há transição ecológica nem justiça climática sem as mulheres na linha de frente. São elas que, com sabedoria ancestral e força coletiva, movem territórios, constroem alternativas e apontam novos horizontes de convivência entre povos e natureza. Foto: Carolynne Matos
Cúpula dos Povos exige soluções reais e alerta para o risco de injustiça climática em Belém

BELÉM/PA — Enquanto o Palácio das Nações Unidas se prepara para receber os chefes de Estado e negociadores da COP 30, os movimentos sociais e as comunidades de base do Brasil e do mundo se articulam de forma autônoma. A Cúpula dos Povos Rumo à COP 30 emerge em Belém como o clamor de quem está na linha de frente da crise, confrontando a agenda oficial que, historicamente, privilegia o mercado e os interesses corporativos em detrimento da vida e dos territórios. O diagnóstico da Cúpula é incisivo: a crise climática é, sobretudo, uma crise de injustiça — racial, social, de gênero e colonial. Se a COP 30 falhar em incorporar a agenda popular, ela será apenas mais um palco para a legitimação de “falsas soluções”. O alerta é claro: o foco em mecanismos de mercado, como a financeirização da natureza, e a omissão em relação à dívida ecológica dos países do Norte Global e das corporações, condenarão a Amazônia e os biomas ao aprofundamento do racismo ambiental e à impunidade corporativa. A luta é contra o extrativismo insustentável e o fracasso em impor uma transição energética que seja, de fato, justa e popular. A força da convergência: seis eixos para o bem-viver com respeito à vida e ao meio ambiente Para reverter esse quadro, a Cúpula dos Povos — que reúne indígenas, quilombolas, juventudes, mulheres, e movimentos de trabalhadores — organizou sua resistência e proposta em seis pilares estratégicos. Esses eixos são a materialização das soluções que vêm da base: Territórios e Maretórios Vivos: Pela demarcação de terras, soberania alimentar e reconhecimento da Natureza como sujeito de direitos. Reparação Histórica: Pelo combate ao Racismo Ambiental, às falsas soluções e a exigência de que a Dívida Ecológica seja paga. Transição Justa, Popular e Inclusiva: Pelo fim da era dos combustíveis fósseis e pela construção de uma democracia energética, partindo dos saberes populares. Contra as Opressões: Pela luta pela democracia, pelo internacionalismo dos povos e contra a extrema-direita e fundamentalismos. Cidades Justas e Periferias Urbanas Vivas: Pelo combate ao racismo ambiental nas áreas urbanas e pela democratização do acesso a saneamento e energia. Feminismo Popular: Pelo protagonismo das mulheres nos territórios e pela defesa intransigente dos direitos reprodutivos e sexuais. Carta final: a ferramenta popular de pressão global O ponto de convergência de toda essa mobilização e discussão será a elaboração de uma Carta Final da Cúpula dos Povos. Essa carta não será apenas um documento protocolar. Ela é concebida como uma ferramenta popular de pressão política internacional, que sintetizará o conjunto de denúncias, propostas e exigências dos movimentos sociais globais. O texto, forjado na luta e nas discussões dos territórios, será um mandato popular para pressionar governos, corporações e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) a transcenderem as negociações climáticas frias e a adotarem o caminho da Justiça Climática e do Bem-Viver. A mensagem é clara: as soluções não virão das salas fechadas das COPs, mas do poder e da articulação dos povos. No encerramento da Cúpula dos Povos, no dia 16, a Carta de Declaração dos Povos, construída coletivamente por integrantes de mais de 1100 entidades e movimentos de 62 países, será entregue ao embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30. Há expectativa de que o presidente Lula esteja presente neste dia. Foto: Zé Netto – Ag.EficazPress
Durante Barqueata, Cacique Raoni pede que indígenas e brancos se unam em defesa da Amazônia

Passeata sobre os rios abre a Cúpula dos Povos Rumo à COP 30 em Belém para mostrar ao mundo que a resposta para a crise climática está nos territórios vivos e livres Belém (PA), 12 de novembro de 2025 — O sol nasceu sob as águas do rio Guajará refletindo o colorido de centenas de embarcações que, pouco a pouco, foram construindo potente movimento de resistência, vida, coragem. Mais de 5 mil pessoas, vindas de 62 países, navegando juntas na Barqueata da Cúpula dos Povos, um grande ato político e simbólico que buscou afirmar para o mundo que o futuro nasce das águas, das florestas e das comunidades que cuidam da Terra. Entre os remos e cantos que ecoaram sob o rio, a barqueata teve presença do lendário Cacique Raoni Metuktire. Acompanhado de seus sobrinhos Megaron Txucarramãe, Kokonã Metuktire e Iamut Metuktire, ele trouxe o peso da ancestralidade e a força da sabedoria dos povos originários à Caravana da Resposta, mobilização que cruzou os rios de Santarém a Belém para se contrapor ao Ferrogrão, logística de escoamento de grãos que atende modelo econômico baseado em uma infraestrutura voltada às corportações. Com firmeza e serenidade, Raoni falou para a imprensa sobre a necessidade de união entre indígenas e não indígenas para que a paz e o respeito mútuo sejam o caminho que conduza o planeta à harmonia. Raoni denunciou os avanços do desmatamento, a expansão da soja no Mato Grosso e os riscos dos projetos de ferrovia e exploração de petróleo em terras indígenas. “Se continuarem fazendo essas coisas ruins, todos teremos problemas — mas o povo indígena sofrerá primeiro”, alertou. Ainda assim, sua fala foi também um chamado à esperança, à convivência pacífica, à escuta entre diferentes e à proteção da natureza como dever comum da humanidade. O Cacique, que já foi indicado diversas vezes ao Prêmio Nobel da Paz, destacou ainda a necessidade de diálogo e cooperação entre culturas como base para a construção de políticas ambientais justas e inclusivas. “Não quero conflitos entre indígenas e brancos. Precisamos resolver juntos, com respeito e equilíbrio”. Ele manifestou preocupação com o avanço do desmatamento nas terras indígenas e destacou a importância da preservação da floresta para o equilíbrio do planeta. “Precisamos cuidar da nossa floresta, que é como a respiração do mundo. Não podemos continuar com o desmatamento, porque, se isso continuar, nossos netos terão problemas”. Raoni também ressaltou o respeito que recebe em viagens internacionais, onde costuma dialogar com representantes de outros países sobre a realidade dos povos indígenas. “Quando vou para fora, ninguém me oferece dinheiro em troca das riquezas do meu território. O que peço é que respeitem e ajudem a garantir a preservação das nossas terras”, declarou o líder indígena. Solidariedade internacional – Durante a coletiva, Kirtanand Chandrasekaran, da Comissão Política da Cúpula dos Povos e membro da Amigos da Terra Internacional, ressaltou que para além das 10 mil pessoas que se mobilizam em defesa da Amazônia e contra a crise climática, em Belém/PA, outras milhões também se movem internacionalmente. “São pessoas que vêm atrás de nós, em nossos territórios, que estão conosco, construindo esse processo há mais de dois anos e vão continuar em todas as regiões, em todos os países”. Segundo Kirtana, “é preciso enfrentar a crise do capitalismo, que não tem respostas para as crises climáticas e de desigualdade, para a crise dos trabalhadores, frente às economias e às políticas de guerra e morte. Nós representamos a vida”. Ao responder porque tanta gente se mobiliza para a Cúpula dos Povos, ela foi enfática: “diante da guerra, da destruição do planeta, nós mobilizamos e civilizamos a vida. Estamos construindo aqui uma aliança internacional, global, de solidariedade entre os movimentos que podem confrontar o poder corporativo, que podem confrontar a política de direita e propor soluções e respostas para as pessoas que estão em desilusão”. As demandas que os povos levantam nessa Cúpula estão ligadas, por exemplo, à agroecologia e à permanência nos territórios com suas culturas ancestrais de convivência com os biomas diversos. “O agro não coloca comida no prato. Nossa resposta é agroecologia e não soja. É devolver as terras para os povos indígenas. As respostas vêm dos povos e a gente vai construir essas respostas nos próximos 6 dias”, Além de pedir soberania energética e alimentar, contra o colonialismo verde e as falsas soluções que são perpetuadas dentro da lei, e por todos os nossos governantes , Kirtana lembrou que os movimentos estão se mobilizando no Conselho das Nações para também colocar fim no apartheid, na colonização, nas forças corporativas e na militarização da vida. “Estamos aqui para representar a confluência de povos para confrontar o poder das corporações transnacionais e reivindicar respeito à política de direitos humanos. E nós estamos construindo esse poder aqui no Conselho das Nações. Liberdade para os palestinos! Liberdade sem petróleo, pelo fim das guerras!”, enfatizou. Cleidiane Vieira, da Comissão Política da Cúpula e integrante do Movimento Atingidos por Barragens (MAB) também falou da importância da construção coletiva da Cúpula dos Povos, que vem sendo articulada desde 2023. Ela disse que a Cúpula começou a ser pensada em Belém durante a Cúpula dos Presidentes da Amazônia, quando Lula candidatou Belém, para ser sede da COP30. “Então, para nós é muito simbólico abrir a Cúpula dos Povos fazendo esse momento, que chamamos de Barqueata. Por que é tão simbólico? Nós vivemos na Amazônia e aqui não é só floresta, é floresta, é rio e são os povos, principalmente. Então, para nós é muito simbólico.”, disse ela ao lembrar que é preciso dizer que é desse lugar de onde as comunidades tiram seu sustento. Rio do anúncio e da denúncia A Barqueta, que percorreu cerca de 4,5 milhas náuticas partindo de portos próximos à Universidade Federal do Pará, transformou o rio em palco de denúncia e celebração. Faixas e cartazes erguidos sobre as embarcações lembravam que as verdadeiras respostas à crise climática vêm dos povos das águas, das florestas e das periferias — daqueles que resistem com saberes coletivos,
Manifesto dos Povos do Mangue e do Mar ecoa no Fórum Mundial de Nyéléni

“Desde a maternidade dos mares e oceanos, o mangue” foram as palavras com as quais iniciou sua intervenção o dirigente dos Povos do Mangue e do Mar, Líder Góngora Farías, em representação da Redmanglar Internacional e do Fórum Mundial de Povos Pescadores e Catadores (WFFP). Essa mensagem, carregada de memória, força e esperança, marcou a participação ativa de nossas delegações no Fórum e permitiu que a pesca e a coleta artesanal se posicionassem com dignidade como verdadeiros “espaços de vida” na agenda internacional. Nossa liderança coletiva demonstrou que não somos atores marginais, mas sim povos milenares — negros, cholos, montubios, indígenas e comunidades costeiras — que habitamos e cuidamos do Pacífico Sul há mais de 10.000 anos antes de Cristo. Somos guardiões de mares, rios, manguezais e costas, e protagonistas na defesa dos bens comuns. Da mesma forma, lembramos ao mundo uma verdade irrefutável: as mulheres catadoras de mariscos representam cerca de 50% do setor da pesca artesanal, segundo a FAO, e sua visibilização é um direito histórico que não pode continuar sendo negado. Manifesto dos Povos do Mangue e do Mar Neste Fórum Mundial declaramos: Exigimos o reconhecimento de nossos maritórios como territórios de vida, onde mar e comunidade se entrelaçam. Denunciamos a “economia azul”, a pesca industrial, a aquicultura intensiva e a conservação imposta, que geram espoliação, violência e destruição. Defendemos soluções comunitárias: restaurar manguezais e recifes, garantir o pescado e os mariscos como alimento, proteger a vida e não o mercado. Reafirmamos que as mulheres são cuidadoras e decisoras, e devem ser plenamente incluídas nas instâncias de poder e decisão. Demandamos justiça climática e energética, assim como solidariedade com todos os povos que enfrentam militarização, racismo e espoliação, desde a Palestina até as comunidades costeiras do mundo. Neste Fórum colocamos nossas vozes, lutas e propostas para que sejam ouvidas no cenário internacional. Não saímos invisibilizados: saímos fortalecidos, unidos e com o compromisso de seguir defendendo mares, rios, manguezais e costas como bens comuns para o presente e o futuro. “Desde a maternidade do mangue seguimos tecendo vida, resistência e esperança para todos os povos do mar.” Reprodução do Fórum Global Nyéléni
