Sindicalismo é força motriz da transição justa, pauta que corre risco de captura corporativa, alerta Sebastián Ordóñez na Pré-COP Sindical em Brasília

Durante a Pré-COP Sindical, realizada em Brasília nos dias 9 e 10 de outubro, Sebastián Ordóñez Muñoz, representante da organização britânica War on Want e integrante da Comissão Política da Cúpula dos Povos rumo à COP30, fez um forte alerta: a pauta da transição justa foi originalmente levantada pelo movimento sindical, mas corre o risco de ser esvaziada e apropriada por interesses corporativos. Ordóñez destacou que a transição justa nasceu como uma bandeira do sindicalismo internacional, enraizada na defesa de direitos, na justiça social e na transformação estrutural da economia. No entanto, segundo ele, “estamos em um momento em que essa bandeira corre o risco de ser convertida em uma ferramenta de mercado, sem direitos nem justiça, é mais urgente do que nunca defender sua raiz transformadora”. Em sua intervenção, o dirigente falou também em nome da War on Want, organização com raízes sindicais no Reino Unido, nascida há quase 75 anos do movimento dos trabalhadores britânicos e que, hoje, atua em aliança com movimentos do Sul Global em defesa da justiça econômica, da solidariedade internacionalista e da transformação sistêmica. “Estamos no Norte Global, mas comprometidos com a luta dos povos do Sul porque é ali que se sente com mais força o peso da desigualdade e do modelo extrativista que precisamos transformar”, afirmou. Sebastián situou o debate sobre a transição justa no contexto de uma crise sistêmica e interligada, que combina colapso climático, aumento da desigualdade, perda de direitos e erosão democrática. “Vivemos um momento em que todas as crises estão entrelaçadas: a crise climática, a desigualdade, a perda de direitos, a erosão da democracia. São expressões de um mesmo sistema de capitalismo predatório, baseado na extração e na desigualdade estrutural, o que alguns descrevem como uma economia de intercâmbio desigual entre o Norte e o Sul”, afirmou. Ao comentar as discussões do dia anterior, Ordóñez citou exemplos concretos que revelam o caráter global e desigual da crise. No mundo árabe, observou, os sindicatos enfrentam contextos autoritários e economias dependentes do petróleo, ao mesmo tempo em que trabalhadores migrantes sofrem novas formas de exploração, inclusive em setores considerados “verdes”. Ele também chamou atenção para a militarização crescente e o aumento dos gastos com defesa que alimentam conflitos e desviam recursos essenciais da ação climática. E para o fato de que o colapso climático já atinge diretamente a classe trabalhadora, exposta ao calor extremo, à escassez de água e a condições de trabalho cada vez mais inseguras. “Esses exemplos nos lembram que a transição justa é, antes de tudo, uma luta trabalhista. E diante da extrema direita, que manipula a ciência e o medo, nosso desafio é politizar o debate, conectar a luta por trabalho e dignidade com a luta por clima e justiça”, destacou. Ordóñez defendeu que o sindicalismo não deve apenas levar sua própria agenda às negociações climáticas, mas atuar como força impulsionadora de uma agenda ampla de transformação, que una as lutas dos povos e confronte os sistemas que perpetuam a desigualdade e a destruição ambiental. Ele elogiou a iniciativa da Confederação Sindical Internacional (CSI), da Confederação Sindical das Américas (CSA) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em promover a Pré-COP Sindical, destacando o espaço como um exercício de “minga” , conceito andino que remete ao trabalho coletivo, solidário e transformador. A Cúpula dos Povos, que acontecerá de 12 a 16 de novembro em Belém, foi apontada por ele como um espaço estratégico para tecer alianças entre sindicatos, movimentos sociais e redes globais, e consolidar uma agenda comum por uma Transição Justa, Popular e Inclusiva, tema do Eixo 3 do processo da Cúpula. “O sindicalismo pode, mais uma vez, ser a força que una nossas lutas e nos lembre que a transição não é um sacrifício, mas uma conquista coletiva”, concluiu. Foto: Naira Leal
Representantes da Cúpula dos Povos participam da Pré-COP Sindical em Brasília com destaque para o debate sobre transição justa

A Confederação Sindical Internacional (CSI), a Confederação Sindical das Américas (CSA) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) realizaram, nos dias 9 e 10 de outubro, em Brasília, a Pré-COP Sindical. O encontro reuniu lideranças sindicais de diversos países e contou com a participação de representantes da Comissão Política da Cúpula dos Povos, que levaram os debates acumulados no processo de construção da Cúpula, especialmente em relação à transição justa, um dos seus eixos temáticos. Durante o evento, em mesa mediada por Sebastián Muñoz, a presidente da CUT Pará, Vera Paoloni (CUT), o coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA/Via Campesina)Anderson Amaro, e coordenador político da Confederação Sindical dos Trabalhadores das Américas, Iván González (CSA) apresentaram o processo de construção da Cúpula dos Povos, destacando os princípios que orientam a construção coletiva, o espírito de unidade na diversidade e as principais orientações políticas para o diálogo com o governo. Também foram apresentados o cronograma da Cúpula, que ocorrerá de 12 a 16 de novembro em Belém, e a importância de criar espaços de atuação dentro e fora das negociações climáticas. Uma delegação sindical composta majoritariamente por representantes da América Latina, mas também de África, Ásia e Europa, discutiu a conexão entre a agenda da Cúpula e os objetivos internacionais dos sindicatos, em especial a estratégia sobre transição justa e outros temas que serão debatidos na COP30. O diálogo também abordou a necessidade de articular a atuação sindical internacional com a mobilização da Cúpula dos Povos. A Cúpula abriu convite para que os sindicatos se envolvam no enriquecimento dos eixos da Cúpula, levando a voz dos trabalhadores para as discussões e participando da mobilização massiva do dia 15 de novembro. Os sindicatos também foram convidados a colaborar no diálogo que apresentará a declaração final ao presidente da COP, embaixador Correa del Lago, que participou da Pré-COP Sindical junto com representantes do governo brasileiro. Por fim, os representantes da Cúpula reafirmaram o compromisso com a unidade para enfrentar a agenda da extrema direita, a defesa de uma América Latina livre de bases militares e a promoção de paz, alternativas sustentáveis, unidade e fortalecimento da democracia na região. Foto: Naira Leal
Residência Artística NORTEAR abre duas chamadas em parceria com a Cúpula dos Povos Rumo à COP30

A Faculdade de Artes Visuais e o Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará (FAV/UFPA) abriram inscrições para a 4ª edição da Residência Artística NORTEAR, que acontece em parceria com a Cúpula dos Povos Rumo à COP30. Nesta edição, são duas chamadas. Uma é voltada a artistas e realizadores, enquanto a outra é destinada a integrantes de organizações e movimentos da Cúpula que desejam participar como protagonistas dos documentários. As obras finais poderão ser exibidas em mostras artísticas, festivais, encontros acadêmicos e circular em plataformas digitais. As inscrições para artistas seguem abertas até 22 de outubro, para participação na reunião online de apresentação pelo link https://forms.gle/FwxS9EiqVqaqis4v9. Já integrantes de movimentos e organizações da Cúpula podem se inscrever desde já para oferecer depoimentos e compartilhar suas histórias, lutas e projetos, pelo link www.xxx. A Residência NORTEAR é um programa que articula criação artística, audiovisual e pesquisa etnográfica na Amazônia. Nesta edição, o foco será a produção de obras audiovisuais com temáticas ambientais e culturais, em processos de criação compartilhada com povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, trabalhadores urbanos e ambientalistas que estarão presentes na Cúpula dos Povos Rumo à COP30, em Belém. Segundo o diretor da FAV, professor Luiz Adriano Daminello, a iniciativa reforça o papel da universidade na promoção de práticas artísticas ligadas ao território e à realidade amazônica.“A Residência NORTEAR é uma oportunidade para que artistas dialoguem com os saberes tradicionais e experimentem processos coletivos de criação. É também um convite a pensar a arte como ferramenta de escuta e tradução das lutas sociais e ambientais na Amazônia”, diz. Ele destaca ainda a relevância da parceria com a Cúpula dos Povos. “Esse diálogo com a Cúpula insere a Residência no contexto de um encontro internacional que terá os povos da Amazônia como protagonistas. É um momento único de troca e de afirmação do papel da arte diante da emergência climática”, aposta. Durante as gravações presenciais, que acontecem de 12 a 16 de novembro, durante a COP30, os realizadores estabelecerão contato direto com os participantes da Cúpula dos Povos, ouvindo suas histórias e lutas, seus projetos, desafios e conquistas. Também serão realizadas visitas a povos tradicionais que desenvolvem projetos ambientais e comunitários em Belém e nas ilhas do entorno. As propostas dos artistas devem prever um processo colaborativo e de troca de experiências com aqueles que estarão presentes nas imagens. Qualquer linguagem audiovisual é permitida, como ficção, documentário, videoarte ou experimental. Os temas podem abordar diferentes aspectos relacionados às mudanças climáticas e seus efeitos nas sociedades. As obras audiovisuais terão direitos autorais compartilhados entre realizadores e participantes, consolidando o caráter colaborativo do projeto. O processo será dividido em duas etapas:· Etapa online (27 de outubro a 7 de novembro): encontros virtuais de criação, planejamento e pré-produção, com acompanhamento de profissionais do audiovisual e diálogo com integrantes da Cúpula dos Povos.· Etapa presencial (12 a 16 de novembro): filmagens em Belém e nas ilhas do entorno, durante a realização da Cúpula dos Povos – COP30. Se você é artista, inscreva-se até dia 22 de outubro pelo link: https://forms.gle/FwxS9EiqVqaqis4v9 Se você é integrante da Cúpula dos Povos, inscreva-se pelo link: https://forms.gle/cjjyQANp7NRvvaNS6 Para mais informações, envie email para suportenortear2025@gmail.com
“A Cúpula dos Povos será um dos grandes momentos da COP30”, afirma Márcio Macêdo em visita à Casa da Cúpula dos Povos

Belém (PA) – O ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Márcio Macêdo, afirmou nesta quinta-feira, 02, que a Cúpula dos Povos será um dos marcos mais importantes da COP30. Ele defendeu que não existe política pública sustentável se não tiver participação popular. A declaração foi feita durante visita à Casa da Cúpula dos Povos, em Belém, onde o ministro se reuniu com movimentos sociais, organizações da sociedade civil e redes que constroem a Cúpula dos Povos rumo à COP30. O ministro disse que o governo e os movimentos populares dividem os objetivos, embora cada um utilize ferramentas diferentes para alcança-los. Isso porque reconhecem que a participação social é fundamental para a democracia e eficiência de uma política pública. “A Cúpula dos Povos será um dos grandes momentos da COP30. Nós estamos realizando a COP na maior democracia dos povos e não se tem políticas públicas sustentáveis se não tiver a participação social. Com certeza, nós vamos construir juntos, a várias mãos, a COP30, que vai ser a COP com a maior participação social da história”, disse o ministro. Ao afirmar a importância da Cúpula e anunciar maior aporte do governo na garantia de infraestrutura e na intermediação junto aos órgãos, governos e ONU, Márcio Macêdo ressaltou que a Cúpula será um momento decisivo de fortalecimento da democracia direta, de proposição das teses do povo e do movimento social organizado, para que países e estados nacionais possam implementar essas propostas em suas políticas públicas. Ao defender e pautar o diálogo com o governo, a Cúpula dos Povos entende que essa abertura é possível porque os movimentos reconhecem que estão lidando com o campo democrático representado pelo governo Lula. E que mesmo reunindo uma diversidade de movimentos e pautas, a articulação é categórica quanto a não haver espaço de diálogo com a extrema-direita, em ideias que não sejam progressistas. “Nós, na Cúpula, colocamos que nós temos sim convergências, como a defesa da democracia, o posicionamento do governo Lula de ser contra as guerras, ao fim do genocídio da Palestina, a soberania nacional, a agenda climática e ambiental”, pontuou Júlia Martins, liderança do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). O encontro teve como objetivo fortalecer o diálogo para garantir que as demandas históricas dos movimentos relacionadas ao enfrentamento à crise climática sejam efetivamente incorporadas à agenda pública do clima no Brasil e defendidas pelo país nos espaços internacionais de negociação, onde o Brasil tem assumido papel relevante de liderança. Soluções reais – As organizações presentes enfatizaram que é preciso incorporar as experiências e percepções dos povos tradicionais e das periferias rurais e urbanas nas ações, planos e metas de enfrentamento à crise climática. Os movimentos entendem que as soluções reais são aquelas que nascem dos territórios, fortalecem a soberania popular, a justiça climática e a defesa da vida. Já as falsas soluções que promovem a financeirização da natureza, com pacotes corporativos, aprofundam desigualdades e não enfrentam as causas estruturais do problema. Nesse contexto, as lideranças reafirmaram seu caráter como espaço autônomo da sociedade civil e apresentou ao ministro a necessidade urgente de maior apoio às garantias de pleno funcionamento da Cúpula em Belém, de 12 a 16 de novembro, quando são esperadas em torno de 10 mil pessoas em intensa programação composta de plenárias, marcha, barqueata, banquetaço, cúpula das infâncias, atividades culturais e feira de economia popular. O espaço é considerado estratégico para garantir que as vozes da Amazônia, do Brasil e do mundo tenham condições reais de participação no processo de preparação e realização da COP30, evitando que apenas as corporações consigam se fazer ouvir. Durante a reunião com o ministro, Júlia Martins também pontou a necessidade do governo articular medidas de segurança dos participantes, garantindo que o espaço da COP siga plural e comprometido com a justiça social e climática.
Delegação da Cúpula dos Povos consolida alianças internacionais no Fórum Nyéléni

A Cúpula dos Povos rumo à COP30 marcou presença no Fórum Global Nyéléni, realizado em Kandy, Sri Lanka, consolidando um acordo político para que a agenda do Fórum seja apresentada em Belém, em novembro. A participação da delegação representou um passo decisivo na articulação internacional para fortalecer as lutas dos povos e movimentos sociais neste marco histórico que será a Cúpula dos Povos, de 12 a 16 de novembro de 2025. A delegação esteve presente em reuniões com o Comitê de Pilotagem Global do Fórum e em outros espaços de debate. Integraram o grupo Ivan Gonzales (Confederação Sindical de Trabalhadores/as das Américas – CSA), Anderson Amaro (Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA / Via Campesina), Líder Góngora (World Forum of Fisher Peoples – WFFP), Bruno Prada (Articulação Nacional de Agroecologia – ANA), Kirtana Chandrasekaran (Amigos da Terra International), Sophie Ogutu e Sarah Moreira (Marcha Mundial das Mulheres). Para Bruno Prada, da Articulação Nacional de Agroecologia, o Fórum Nyéléni foi um espaço estratégico de convergência das lutas populares. “O Fórum Nyéléni representou um espaço importante para a construção de ações de convergência dos movimentos sociais em torno dos temas da soberania alimentar, agroecologia, justiça climática, transição justa e feminismo, para transformar o sistema capitalista, patriarcal, colonialista, racista e LGBTfóbico em que vivemos. Nosso processo coletivo de construção de convergência nos mostra que somente juntxs poderemos construir uma sociedade mais justa, igualitária e livre, com respeito à natureza”, avaliou. Diretamente de Sri Lanka, Líder Góngora Farías, representante dos Povos do Mangue e do Mar no WFFP, reforçou a centralidade da unidade dos povos na defesa dos direitos humanos e frente à crise climática. “Desde todos os cantos do mundo levantamos a voz em Belém do Pará: povos e movimentos sociais unidos pela justiça climática, a defesa dos direitos humanos e a paz global. De 10 a 16 de novembro de 2025, somemos nossas vozes na Cúpula dos Povos para deter o aquecimento global e mostrar que a unidade é nossa força”, convocou. Já Ivan Gonzales, coordenador político da Confederação Sindical das Américas (CSA), destacou o papel do Fórum Nyéléni como espaço estratégico para a agenda global. “O Fórum de Nyéléni é um espaço importante para promover o que estamos construindo como Cúpula dos Povos rumo à COP. Permite construir diálogos, nutrir os eixos da Cúpula e articular sua construção, vinculando-se também ao debate internacional. Em especial, reafirma a necessidade de mudar a lógica de exploração e acumulação de riqueza baseada nos combustíveis fósseis, na agricultura intensiva, no agronegócio e na pesca industrial irracional, que impactam diretamente a vida no campo e na cidade”, pontuou. A participação da delegação no Fórum é uma estratégia de fortalecimento dos processos políticos contínuos de alianças nacionais e internacionais. Os diálogos travados nesses espaços, com a diversidade de representações e países, alimentam as sínteses políticas e a mobilização para o 15 de novembro – Dia de Ação Global por Justiça Climática, que contará com manifestações em todo o mundo e culminará na grande marcha em Belém. Dessa forma, a presença da Cúpula no Fórum Nyéléni reforça a importância de alianças internacionais na construção de um processo coletivo de resistência e mobilização global, preparando o caminho para novembro, quando povos, comunidades e organizações do mundo inteiro se encontrarão em Belém para tecer propostas e fortalecer lutas comuns.
Manifesto dos Povos do Mangue e do Mar ecoa no Fórum Mundial de Nyéléni

“Desde a maternidade dos mares e oceanos, o mangue” foram as palavras com as quais iniciou sua intervenção o dirigente dos Povos do Mangue e do Mar, Líder Góngora Farías, em representação da Redmanglar Internacional e do Fórum Mundial de Povos Pescadores e Catadores (WFFP). Essa mensagem, carregada de memória, força e esperança, marcou a participação ativa de nossas delegações no Fórum e permitiu que a pesca e a coleta artesanal se posicionassem com dignidade como verdadeiros “espaços de vida” na agenda internacional. Nossa liderança coletiva demonstrou que não somos atores marginais, mas sim povos milenares — negros, cholos, montubios, indígenas e comunidades costeiras — que habitamos e cuidamos do Pacífico Sul há mais de 10.000 anos antes de Cristo. Somos guardiões de mares, rios, manguezais e costas, e protagonistas na defesa dos bens comuns. Da mesma forma, lembramos ao mundo uma verdade irrefutável: as mulheres catadoras de mariscos representam cerca de 50% do setor da pesca artesanal, segundo a FAO, e sua visibilização é um direito histórico que não pode continuar sendo negado. Manifesto dos Povos do Mangue e do Mar Neste Fórum Mundial declaramos: Exigimos o reconhecimento de nossos maritórios como territórios de vida, onde mar e comunidade se entrelaçam. Denunciamos a “economia azul”, a pesca industrial, a aquicultura intensiva e a conservação imposta, que geram espoliação, violência e destruição. Defendemos soluções comunitárias: restaurar manguezais e recifes, garantir o pescado e os mariscos como alimento, proteger a vida e não o mercado. Reafirmamos que as mulheres são cuidadoras e decisoras, e devem ser plenamente incluídas nas instâncias de poder e decisão. Demandamos justiça climática e energética, assim como solidariedade com todos os povos que enfrentam militarização, racismo e espoliação, desde a Palestina até as comunidades costeiras do mundo. Neste Fórum colocamos nossas vozes, lutas e propostas para que sejam ouvidas no cenário internacional. Não saímos invisibilizados: saímos fortalecidos, unidos e com o compromisso de seguir defendendo mares, rios, manguezais e costas como bens comuns para o presente e o futuro. “Desde a maternidade do mangue seguimos tecendo vida, resistência e esperança para todos os povos do mar.” Reprodução do Fórum Global Nyéléni
Avante! Condenação de Bolsonaro é momento histórico para Brasil e para as lutas globais por democracia.

O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PL), a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado após perder as eleições de 2022. A decisão marca um momento histórico para os movimentos sociais, povos dos territórios e democracia brasileira, da América Latina e do mundo. É a primeira vez que um ex-presidente brasileiro é punido por esse tipo de crime, apesar do país ter vivido uma ditadura cívico-militar pós-golpe, no passado recente. Para lideranças de organizações da Cúpula dos Povos, a decisão mostra que as mobilizações pela democracia devem continuar resistindo. “Hoje, 11 de setembro, aniversário de 52 anos do golpe civil-militar no Chile, celebramos a condenação de Bolsonaro por sua tentativa de golpe no Brasil. Num momento em que a América Latina e o mundo enfrentam guerras, o genocídio em Gaza, a ameaça da extrema direita e a perda das liberdades democráticas e dos direitos humanos, a sentença proferida contra Bolsonaro e seus cúmplices é motivo de alegria e um sinal positivo para continuar trabalhando e lutando por sociedades mais justas e sustentáveis”, diz Eduardo Giesen, coordenador para América Latina e Caribe da Campanha to Demand Climate Justice (DCJ) e membro da Comissão Política da Cúpula dos Povos. Para Giesen, uma das estratégias de fortalecimento dessa mobilização global a ser reavivada é a Cúpula dos Povos. “Hoje mais do que nunca, acreditamos que a Cúpula dos Povos pode ser um espaço para voltar a acreditar em paradigmas sociais e políticos verdadeiramente democráticos, distantes do neoliberalismo e do extrativismo, única opção para alcançar a justiça climática”, defende. Reparação do passado que vai além do Brasil e é recado para o futuro global Para Lúcia Ortiz, da Amigos da Terra Brasil e membro da Comissão Política da Cúpula dos Povos, a condenação tem um peso que atravessa fronteiras e conecta a história recente do Brasil às lutas de toda a América Latina e Caribe. Essas histórias se cruzam não só por reunirem atrocidades, violações de direitos e busca de reparação através de Comissões da Verdade, mas também por envolveram alguns personagens que retornam à história, no caso do condenado general Augusto Heleno. “É importante lembrar que o general Augusto Heleno, um dos articuladores do núcleo golpista, liderou a ocupação das tropas militares da ONU no Haiti, responsável por uma série de violações, além de ter defendido o golpe militar de 1964, cuja Comissão da Verdade levou mais de 40 anos para acontecer sem que chegasse a um processo de justiça e reparação dos crimes cometidos”, observou. Ela também pontuou a importância para o contexto global atual, de retorno do imperialismo, do fascismo, das guerras e dos genocídios pelo mundo, ao mesmo tempo em que se vive as prévias de disputas eleitorais. “É um marco, ainda mais num momento pré-COP30 na Amazônia e num ano pré-eleitoral em que é fundamental fortalecer a democracia e a solidariedade internacionalista contra os ataques comerciais e militares que atentam contra a soberania dos povos”, completou. Quem viveu as atrocidades não esquece Vera Paoloni, presidenta da Central Única dos Trabalhadores no Pará (CUT/PA) e membro da Comissão Política da Cúpula dos Povos, destacou que a decisão do STF ecoa profundamente entre movimentos sociais e mulheres trabalhadoras, grupos fortemente atacados pela campanha de ódio e pela desestruturação das políticas sociais, seja pelo sucateamento dos órgãos, seja pelo encerramento de ações. “Para nós, dos movimentos de resistência, é uma alegria imensa ver a firmeza da maioria do Supremo em condenar Bolsonaro e o núcleo golpista que atentou contra a democracia e contra a vida do país. Bolsonaro sempre tratou as mulheres como inferiores, debochou dos direitos, atacou cruelmente os trabalhadores e trabalhadoras, os movimentos sociais, e sequer se moveu para buscar vacinas no período terrível da COVID-19”, comentou. Para Vera, “tudo isso está na memória e na pele de cada mulher trabalhadora e de cada lutador e lutadora deste Brasil. Por isso, é fundamental que ele tenha sido condenado – e ainda mais simbólico que o terceiro voto, que o envia para o xilindró, tenha sido dado por uma mulher, a ministra Cármen Lúcia. Já vai tarde”. “Agora conseguimos respirar um pouco mais e seguir na luta por direitos sociais, por justiça social e justiça climática, sabendo que a democracia foi assegurada com essa firmeza do Supremo. É um lindo dia para nós, mulheres, para os movimentos sociais e para todo mundo que luta cotidianamente por um Brasil melhor, por um Pará melhor e pelo bem viver dos povos”, diz. “Implementou um plano progressivo e sistemático de ataque às instituições democráticas” Bolsonaro foi condenado em julgamento da primeira turma do STF com votos favoráveis dos ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin. Apenas o ministro Luiz Fux votou contra a condenação. No voto que selou a sentença, a ministra Cármen Lúcia foi incisiva ao defender a condenação de Bolsonaro pela organização do crime contra a soberania nacional. “A procuradoria fez prova cabal de que o grupo liderado por Jair Messias Bolsonaro, composto por figuras chave do governo, das Forças Armadas e de órgãos de inteligência, desenvolveu e implementou um plano progressivo e sistemático de ataque às instituições democráticas com a finalidade de prejudicar a alternância legitima de poder nas eleições de 2022, minar o exercício dos demais poderes constituídos, especialmente o Poder Judiciário”, destacou. Ela também reforçou o ineditismo do julgamento e sua representatividade. “O que há de inédito nesta ação penal é que nela pulsa o Brasil que me dói. A presente ação penal é quase um encontro do Brasil com seu passado, com seu presente e com seu futuro na área das políticas públicas dos órgãos de Estado”, afirmou. O posicionamento de Cármen Lúcia foi bastante reverenciado pela sociedade. Além de ocupar espaço onde a maioria é masculina, a ministra é mulher, segmento duramente atacado por Bolsonaro em suas campanhas marcadas por misoginia e violência de gênero. Essas campanhas eram reproduzidas pelo grupo da extrema direita que se instituíram em diversos espaços, do público ao
Cúpula dos Povos participa da primeira reunião das Câmaras Consultivas do CIM e defende que soluções dos territórios sejam reconhecidas nas políticas climáticas.

Organizações que compõem a Cúpula dos Povos, articulação que reúne cerca de 1,1 mil de movimentos sociais e organizações da sociedade civil, participaram do lançamento das Câmaras Técnicas do Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) do Brasil, e da primeira reunião das Câmaras Consultivas que incluem as Câmaras de Participação Social (CPS), de Assessoramento Científico (CAC) e de Articulação Interfederativa (CAI). O desafio dessa participação é pressionar para que as políticas públicas promovam os direitos e não as violações dos direitos dos povos. O lançamento e a primeira reunião ocorreram nesta quarta e quinta-feira, 10 e 11, respectivamente, no Distrito Federal. Conforme o governo, a reunião das câmaras buscou aproximar o governo federal das organizações da sociedade civil, da academia e de representantes locais, assegurando que as diferentes perspectivas possam alcançar instâncias decisórias do Comitê. Esses espaços consultivos do CIM são considerados estratégicos ao permitirem que movimentos sociais acompanhem e influenciem a formulação e monitoramento das políticas através da CPS, por exemplo. Em tempos de negacionismo, a CAC cumpre papel de garantir que decisões sejam fundamentadas em conhecimento científico confiável, enquanto a CAI promove articulação entre União, estados e municípios, fortalecendo o federalismo ambiental. A participação de organizações articuladas na Cúpula nesses espaços evidencia a importância de conectar as vozes da sociedade civil à elaboração e execução de políticas climáticas, garantindo que decisões tomadas no âmbito federal considerem as necessidades e soluções propostas pelos territórios. Letícia Tura, diretora nacional da Fase e membro da Comissão Política da Cúpula dos Povos, alerta: “alguns desafios da sociedade civil na participação nessas câmeras técnicas é garantir que as políticas públicas climáticas sejam vetores de garantia e de defesa de direitos e não vetores de violação de direitos. Que as proposições da sociedade civil sejam visualizadas e efetivadas e que as soluções que vêm dos territórios sejam reconhecidas nas políticas públicas domésticas sobre o enfrentamento das mudanças climáticas”. Fotos: GIZ Juliana Caribé
No Dia da Amazônia, movimentos sociais, pastorais e centrais sociais chamam para o Grito dos Excluídos 2025 em Belém.

Este ano, é esperada grande participação nas ruas em defesa democracia, soberania e plebiscito popular como instrumentos de mobilização Belém (PA), 5 de setembro de 2025 – No Dia da Amazônia, cerca de 26 organizações, entre movimentos sociais, pastorais sociais e centrais sindicais, lançam chamado para o Grito dos Excluídos e das Excluídas que acontece em 7 de setembro na capital paraense, sede da COP30. Em articulação com as marchas que acontecerão em todo o Brasil, a da capital paraense ocupará as ruas em defesa da soberania na perspectiva de um país que garanta comida na mesa de todos, moradia e respeito aos territórios. Também chamará para o plebiscito que mobiliza a sociedade para discutir e defender jornada de trabalho justa e taxação dos super ricos. O Grito é uma mobilização histórica no Brasil. “O Grito dos Excluídos e das Excluídas faz parte de um coletivo que compõe muitos movimentos sociais, organizações sociais, pastorais sociais, partidos políticos, ecoando as vozes importantes que mostram as demandas, as desigualdades sociais que a gente tem na nossa sociedade”, explica Katiane Souza, do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). Este ano, a temática mobilizadora é “Vida em primeiro lugar – Cuidar da Casa Comum e da Democracia é luta de todo dia”. Ela serviu de base para mobilizações que aconteceram ao longo do ano para envolver e organizar a sociedade civil. “Esse processo é um processo mesmo coletivo da gente poder unir forças. Então, essa questão do dia 7, para além de unir forças, a gente relembra muito que é no sentido de poder falar e questionar se realmente houve uma independência de fato no Brasil. Principalmente quando a gente olha para um contexto de uma sociedade onde, em sua maioria, são pessoas negras, mulheres negras, que estão no contexto de exclusão, que sofrem com o racismo estrutural, que sofrem com a necropolítica, que sofrem com o sexismo, onde não tem acesso a uma educação, uma saúde, de qualidade, a uma moradia”, completa. As organizações alertam que o Brasil não vive apenas uma democracia fragilizada, mas sim uma democracia ameaçada, diante da escalada de discursos de ódio, retrocessos de direitos e da captura do Estado por interesses privados. Para os movimentos, democracia só existe se for exercida desde os territórios, com liberdade de expressão, participação popular, respeito às diferentes formas de vida e soberania. “Pra nós, soberania é comida na mesa e cuidar da natureza. Quando a gente tem uma população que consegue se alimentar de forma correta, de forma saudável, isso representa também um poder pra esse país, representa a soberania. Quando consegue se alimentar com comida sem veneno, sempre podemos dizer que isso é cuidar da natureza e a soberania passa por esse caminho. Quando consegue ter sua casa e seu território respeitado, é soberania”, afirma Ricardo Cabano, do MST. Para enfatizar essas análises, a marcha terá falas políticas, intervenções artísticas e coleta de votos para o plebiscito popular. A concentração será a partir das 8h da manhã na Escadinha da Estação das Docas. A caminhada seguirá até a Praça em frente ao Palácio Antônio Lemos. Plebiscito Popular: mais que votos, mobilização Um dos pontos de destaque do ato é o Plebiscito Popular “Por um Brasil mais justo”, apresentado por Ricardo Cabano, do MST, como um instrumento de mobilização e formação política. A consulta nacional pergunta à população sobre dois temas centrais. Um é se a pessoa é a favor da redução da jornada de trabalho sem redução de salário. Outra é se ela é a favor de que os super-ricos paguem mais impostos e os trabalhadores de baixa renda sejam isentos. O plebiscito começou em julho deste ano, trazendo para o debate público o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho e um de folga). Proposta apresentada no Congresso pela deputada Érica Hilton reduz para escala 4×3 (quatro dias de trabalho e três de folga). Isso daria uma condição melhor para o trabalhador de construir a sua vida, conforme explica Ricardo. Ele explica ainda que a proposta de taxar os super ricos tenta corrigir a injustiça fiscal existente no Brasil. Isso faz com que uma pessoa com rendas díspares, como os assalariados e em situação de vulnerabilidade paguem os mesmos preços por produtos que um rico. “Essa taxação visa diminuir essa injustiça entendendo que temos classe trabalhadora muito grande que paga muitos impostos”, enfatiza. Ele ressalta, ainda, que o plebiscito cumpre uma função maior que consultar, uma vez que chama a população à reflexão. “O plebiscito não é só consulta. É uma ferramenta de mobilização, de debate sobre o tempo de vida, o tempo de trabalho e a justiça tributária. É o povo tomando em suas mãos o direito de decidir sobre os rumos do país”, destaca. Amazônia no centro do Grito O ato também será um espaço de denúncia sobre a realidade amazônica. Em Belém, onde será instalada a Casa da Cúpula dos Povos, movimentos reforçam que a Amazônia não pode ser tratada como mercadoria em negociações globais. “Nada sobre nós, sem nós”, diz Turi, liderança do território do Abacatal, em Ananindeua, reforçando uma fala cada vez mais forte de defesa da participação dos povos tradicionais nas decisões sobre seus territórios. Serviço: Data: 7 de setembro de 2025 (domingo) Concentração: 8h na Escadinha da Estação das Docas (Belém – PA) Marcha: até a Praça em frente ao Palácio Antônio Lemos Programação: Intervenções culturais, falas de organizações populares e coleta de votos do Plebiscito Popular
Cúpula dos Povos lança Chamado Global à Ação antes da COP30 pedindo marchas de solidariedade em todo o mundo no dia 15 de novembro.

Movimentos sociais e ambientais de todo o mundo lançaram hoje um apelo à ação para um Dia Global de Ação em 15 de novembro de 2025, coincidindo com as negociações climáticas da COP30 das Nações Unidas. Como parte da Cúpula dos Povos, milhares de pessoas devem sair às ruas de Belém, Brasil, exigindo justiça climática e mudança de sistema. O apelo exorta movimentos, organizações e povos de todos os lugares a organizarem suas próprias marchas e ações locais em solidariedade, unindo lutas além das fronteiras na luta contra a desigualdade, o racismo ambiental e a impunidade corporativa. Vozes do chamado: “Da Amazônia para o mundo, estamos dizendo que já basta. O dia 15 de novembro não se trata apenas de marchar em Belém. Trata-se de mostrar que pessoas de todos os lugares estão se levantando juntas. O Dia Global de Ação demonstrará que a justiça climática é inseparável da justiça para os povos, territórios e gerações futuras.” Cleidiane Vieira – Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) “Marchamos pela vida. O dia 15 de novembro será um momento histórico, mostrando aos governos e às corporações que o mundo está observando e que exigimos mudanças. Esta é nossa oportunidade de nos unirmos além das fronteiras, para exigir reparações, responsabilizar as corporações e afirmar que a vida e a dignidade valem mais do que o lucro e a destruição.” Kirtana Chandrasekaran – Amigos da Terra Internacional “O Dia Mundial de Ação é uma oportunidade para amplificar as vozes das comunidades que defendem a terra, a água, os empregos, as florestas e as cidades. É um apelo à solidariedade internacional, que lembra ao mundo que o poder da resistência está nas mãos das pessoas comuns e das suas diferentes formas de organização, e não nas mãos das empresas e dos governos.” Ivan González – CSA-TUCA “O dia 15 de novembro não é uma marcha simbólica. É um ato coletivo de desafio contra o sistema que destrói nossas vidas e nossas terras. De Belém às ruas de todas as cidades, os povos indígenas e comunidades tradicionais mostrarão que se recusam a deixar que as corporações e os governos nos sacrifiquem em nome do lucro. Mostraremos que nossas vozes não podem ser silenciadas e somos essenciais para a construção de soluções coletivas. A resposta somos nós!” Toya Manchineri Representante Indígena da COIAB
