Saiu na imprensa: Comida-território, o legado da agroecologia na mesa da COP na Amazônia | Na contramão do agronegócio e alvos do racismo, cozinhas nas zonas oficiais da conferência do clima e na Cúpula dos Povos deram ao mundo o mapa do caminho para transformar o sistema alimentar.

Das mãos das irmãs Lúcia e Nazaré Reis, e de outras mãos que semeiam juntas, veio um dos avanços da COP na Amazônia: a comida-território que encheu os pratos do mundo com solução climática. Pela primeira vez na história das conferências do clima, a alimentação foi porta-voz da transição e da justiça que documentos oficiais ainda não entregam. Apesar do lobby do agronegócio que invadiu Belém e do racismo alimentar que partiu da própria organização da COP30, a agroecologia deixou seu legado. Lúcia, psicopedagoga, tem 74 anos; ela entrega prosa e farofa das boas. Nazaré, agrônoma, tem 72; partilha amor e luta pela terra. As irmãs fazem parte da Rede Bragantina de Economia Solidária, Artes e Sabores, que reúne mais de 2 mil famílias da agricultura familiar e suas associações, de 11 municípios do nordeste do Pará, com produções sem corte, sem queima e sem veneno. Uma parceria entre a Rede Bragantina e a Central do Cerrado, formada por cooperativas do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia, deu vida ao restaurante da Sociobio, levando o que brota dos biomas para dentro da COP30. A prioridade do restaurante era atender voluntários e trabalhadores – após as 14 horas, a entrada era liberada a qualquer pessoa. Por isso, começou antes e terminou depois da COP, servindo cerca de 80 mil refeições ao longo desse período. Em cinco semanas de operação, foram cerca de 100 toneladas de alimentos comprados, mais de 75% deles vindos de 60 organizações de agricultores familiares e de povos e comunidades tradicionais. O bandejão da diversidade ia do pirarucu de manejo sustentável do Médio Juruá, Amazonas, ao arroz do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul. A refeição incluía um copo de suco e custava 40 reais – um preço mais acessível dentro do espaço da Zona Azul, onde a comida era bem mais cara. A Rede Bragantina também levou seus sabores à Cúpula dos Povos, o banzeiro popular que misturou mais de mil organizações sociais do mundo em barqueata, marcha e atividades paralelas à COP oficial. A cúpula terminou num domingo com um banquetaço em praça pública. Lá estava a Rede Bragantina junto a outros sete grupos de mulheres agroextrativistas, agricultoras familiares, Quilombolas, dos terreiros de matriz africana, das periferias urbanas. Uma tonelada e meia de alimentos vertidos em receitas da cultura alimentar amazônica foi distribuída a cerca de 2 mil pessoas que se enfileiraram até o cair da noite. Só de açaí foram 500 litros. A militante do MST Beatriz Luz participou da organização do banquetaço, que, além de comida, entregou um projeto de mundo possível. “A gente sentiu um diálogo com a cidade muito forte. E conseguiu posicionar o banquete público enquanto ato político, oferecer comida e, a partir disso, demonstrar que a gente tem capacidade de alimentar a sociedade. A gente precisa de política pública, a gente precisa de territórios vivos, a gente precisa de cozinha solidária ativa.” Beatriz também fez parte da cozinha solidária da Cúpula dos Povos, tocada pelo MST junto com o Movimento Camponês Popular e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Cozinha solidária é uma tecnologia dos movimentos sociais, do povo que planta a comida e mata a fome. O acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos, do governo federal, garantiu a compra de 86 toneladas de insumos agroecológicos e comida gratuita para a gente de luta mobilizada na Cúpula. Os alimentos não utilizados foram doados a outras cozinhas solidárias do Pará. Sem o gado do agronegócio, a Cúpula dos Povos trouxe a defesa dos territórios por soberania alimentar, que é parte da resistência contra a emergência climática. “Pra nós, a mudança climática não pode ser vista de forma isolada, dissociada de um conjunto de crises produzidas pelo sistema capitalista. E a principal medida de qualquer política de enfrentamento a esse sistema de crises é reforma agrária, é demarcação de terra, é regularização fundiária”, defende Beatriz. Agronegócio faz do sistema alimentar um problema climático Um dos agentes das crises que adoecem o planeta, o agronegócio montou seu teatro na AgriZone, espaço da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Entre os patrocinadores estavam o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, mantido pela Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA) – a mesma que, no final de novembro, acionou o Supremo Tribunal Federal contra as novas demarcações de Terras Indígenas anunciadas pelo governo durante a COP –, e a fabricante de agrotóxicos Bayer. No país que mais consome veneno agrícola no mundo, o Congresso brasileiro, depois de matar o licenciamento ambiental, agora tenta suspender o Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins. O agronegócio, herdeiro dos latifúndios coloniais baseados em monoculturas e na exploração de pessoas escravizadas, é uma das mais poderosas forças de captura da política nacional e o principal vetor que torna o sistema alimentar um grande problema para o clima. Sistema alimentar é um conceito que discute o caminho desde a produção, passa por processamento, distribuição e consumo, e chega até o descarte dos alimentos. O sétimo relatório Perspectivas do Meio Ambiente Global, GEO-7, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicado este mês, aponta a transformação do sistema alimentar entre os cinco caminhos necessários para tornar o planeta saudável e sustentável. O documento afirma que o atual sistema alimentar é insustentável e está entre os principais impulsionadores das mudanças do clima, da perda de biodiversidade, da degradação do solo e da poluição. Enquanto isso, bilhões de pessoas não têm acesso à alimentação nutritiva o suficiente e acabam tendo de enfrentar a fome. Um terço das emissões globais de gases de efeito estufa vem do sistema alimentar. O Brasil é o segundo maior emissor do mundo por esse quesito, atrás apenas da China, conforme dados levantados pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis. Culpa das mudanças no uso da terra – causadas majoritariamente pelo desmatamento – e da atividade agropecuária – em grande parte por conta do gás metano liberado no chamado “arroto do boi”, em

Manejo de 10 toneladas de resíduos garante prêmio Lixo Zero à Cúpula dos Povos e reforça que as soluções para a crise climática vêm da vivência dos territórios

POTÊNCIA CLIMÁTICA – O trabalho de cooperativas de catadores, movimentos e organizações gerou bioinsumo para a produção agroecológica, conectando justiça climática e soberania alimentar.   A Cúpula dos Povos transformou o tratamento de mais de 10 toneladas de resíduos gerados de 12 a 16 de novembro em uma demonstração política de que as soluções para a crise climática nascem dos territórios. A iniciativa garantiu o manejo integral do lixo, valorizou o trabalho dos catadores e rendeu ao evento o Prêmio Lixo Zero, reconhecimento nacional de que a gestão ambiental justa só é possível com participação popular e infraestrutura construída junto às cooperativas. Durante os cinco dias de programação da Cúpula, na Universidade Federal do Pará (UFPA), o manejo foi organizado a partir de pilares estruturantes (reciclagem popular, agroecologia e práticas alinhadas ao conceito Lixo Zero) e dos eixos Limpeza, Triagem e Destinação e Educação Ambiental. “No eixo da limpeza, tivemos a força das mulheres da economia solidária e da equipe da UFPA, que garantiram o cuidado diário dos espaços. Aqui, o aspecto político é direto: quando a limpeza é realizada por coletivos populares, ela gera renda, autonomia e dignidade”, explicou a coordenadora do Grupo de Trabalho de Resíduos e integrante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Kallen Oliveira. “No eixo da triagem e destinação, atuamos com a Central da Amazônia e cinco cooperativas de catadores. A experiência mostrou, mais uma vez, que as cooperativas dominam tecnologias sociais que funcionam: separação manual cuidadosa, organização do fluxo dos materiais, aproveitamento máximo dos recicláveis. Tudo isso com conhecimento acumulado ao longo de décadas, e que precisa ser valorizado como ciência popular”, continuou. “No eixo da educação ambiental, a juventude — filhos de cooperados, bolsistas e voluntários — levou informação para o público, coletou dados para pesquisa acadêmica e, sobretudo, mostrou que a mudança de comportamento nasce do diálogo direto e da presença cotidiana”, completou. O modelo articulou cooperativas, juventudes, catadores e universidades em uma operação que uniu técnica, mobilização popular e a escolha política clara de demonstrar que não haverá justiça climática sem justiça para quem cuida da vida e dos bens comuns da natureza. A operação foi conduzida pelo Grupo de Trabalho de Resíduos, que reuniu o Movimento Sem Terra (MST), o Movimento de Mulheres do Tapanã, o Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional e a Central da Amazônia composta pelas cooperativas Concaves, Filhos do Sol, Catasalvaterra, Cocamar e Cocadout. O apoio do Ministério do Trabalho e Renda e da UFPA, através da FADESP, garantiu os recursos necessários para mobilizar e construir a infraestrutura. Para garantir que a estratégia funcionasse, foi montada a Central de Resíduos Carolina Maria de Jesus, instalada na Universidade Federal do Pará. O espaço funcionou como um galpão onde todo o material foi triado, separado e organizado para a destinação. Mais de 170 pessoas trabalharam diretamente na gestão e na educação ambiental ao longo da Cúpula. Kallen Oliveira explica que a experiência confronta modelos tradicionais de grandes eventos. “Enquanto espaços oficiais da COP 30 apostam em soluções de mercado, nós mostramos que o povo organizado tem capacidade de tratar os resíduos com responsabilidade e dignidade”, afirma. A central tornou-se também um espaço de formação permanente, pois, filhas e filhos de catadores, estudantes da universidade, cooperados e voluntários conduziram um processo de sensibilização que integrou o público da Cúpula às práticas sustentáveis. Eles percorreram todos os espaços explicando o trabalho, orientando o descarte adequado e realizando entrevistas com os participantes do evento. Os universitários bolsistas e filhos de catadores passaram por um processo de formação garantido por docente da UFPA e educadores das cooperativas. As entrevistas aplicadas por esse grupo trouxeram dados qualitativos para a pesquisa que está sendo feita a partir deste trabalho sob a percepção ambiental do público. Entre as jovens educadoras estavam Isabela Baia e Emilly Bastos Baia, que observaram a necessidade de investir ainda mais na orientação para que o descarte diminua. “A gente está trabalhando com educação ambiental. A maioria das pessoas vem pra COP, mas não conhece o processo. Vamos educar essas pessoas pra que futuramente a gente não tenha tanto esses problemas de descarte”, diz Isabela. “Muitas pessoas não tem informação e acabam descartando tudo misturado. Tem toda essa questão que muitas pessoas não recebem educação. Quando descartam tudo junto, fica difícil as cooperativas separarem”, completa Emilly. Débora Baia, da Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis (Concaves), explica que essa visibilização também passou a ser maior com a ajuda do “reciclômetro Concaves”, uma tecnologia social que contabiliza publicamente a quantidade de resíduos gerados no evento. O equipamento foi criado a partir de software de gestão desenvolvido no Paraná, onde está sendo realizado investimento em cooperativa de reciclagem, conta Débora que acredita na valorização do trabalho e no papel educativo da sociedade a partir da visibilidade. “Na Cúpula, a gente começou com o reciclômetro. Papel, plástico, vidro, orgânico, tudo é pesado e a gente vai alimentando diariamente. É forma de educação ambiental também porque as pessoas começam a entender o que o evento gerou. Há geração de renda, postos de trabalho e principalmente o direcionamento pra reciclagem, cuidando do meio ambiente”, observou. Para Kallen, a experiência também revela algo maior. “A solução para a crise climática não virá do lucro, virá do povo organizado, que conhece a terra e cuida dela.” Tecnologia social, compostagem e economia popular Todo o fluxo de resíduos foi tratado dentro da própria UFPA. Coletores seletivo foram instalados estrategicamente e os materiais seguiram para a triagem no galpão. Os recicláveis foram destinados às cooperativas, garantindo geração de renda. Os resíduos orgânicos passaram por compostagem acelerada, em tecnologia operada pela Concaves. A proposta resgatou a dimensão social do trabalho dos catadores, reconhecendo sua centralidade na cadeia ambiental. Ao tratar resíduos de forma adequada, a Cúpula também evitou que materiais fossem parar em aterros e reduzisse a emissão de gases de efeito estufa. A compostagem retorna como bioinsumo para a produção agroecológica, conectando justiça climática e soberania alimentar. A gestão demonstrou que políticas ambientais eficazes exigem participação popular, infraestrutura

Tribunal Feminista Internacional condena modelo de exploração que gera a crise climática, a violação de mulheres e territórios. Denúncia será levada à Corte Interamericana.

Em decisão histórica, o Tribunal Feminista Internacional instalado durante a Cúpula dos Povos Rumo à COP 30 analisou nove casos do Sul Global sobre como as crises política, econômica, social, de segurança e climática impactam as vidas e os direitos de mulheres e dissidentes sexuais. O modelo capitalista extrativista, racista e patriarcal foi condenado e agora Estados e corporações serão denunciados à Corte Interamericana de Direitos Humanos por crimes contra a humanidade e violações dos direitos da natureza. O Tribunal foi organizado pela Iniciativa Internacional de Mulheres sobre Corpos e Territórios, pela Articulação das Mulheres Brasileiras (AMB), pelo Grupo de Defesa de Mulheres e Mudanças Climáticas (Peru) e pela Coalizão Global para as Florestas (GFC), como ação desenvolvida a partir do eixo temático “Feminismo Popular e Resistência das Mulheres em Territórios” que mobilizou os movimentos, organizações e redes ao longo de 2024 e 2025. No julgamento, realizado no dia 13 de novembro, na Tenda Plenária da Universidade Federal do Pará, foram analisadas nove denúncias feitas por mulheres e dissidentes da Palestina, Haiti, Saara Ocidental, Peru, Brasil, Venezuela, Chile e Pará brasileiro. Durante toda a sessão, os casos revelaram a amplitude da violência que atravessa os corpos, as vidas e os territórios de mulheres e dissidentes, em meio a crises políticas, econômicas, sociais, de segurança e climáticas. As denúncias convergiram para o diagnóstico comum de que o modelo capitalista extrativista, racista e patriarcal segue aprofundando desigualdades e instaurando novas formas de colonização que se expressam tanto na captura dos territórios quanto na violação dos corpos. Então, a conclusão foi que cada um dos casos denunciados revela diferentes expressões de um mesmo sistema de opressões. “Os casos apresentados por mulheres do Sul Global revelaram a interseção da violência de gênero, geopolítica, econômica, social, ambiental, racial, transfóbica e climática em seus corpos e territórios, seus impactos e sua resistência a uma ordem opressora contra a qual travam uma luta articulada por uma coexistência pacífica, sem discriminação, com justiça, em equilíbrio com a natureza e celebrando a diversidade”, diz um trecho da sentença. O Tribunal foi presidido por Celia Xakriabá, líder indígena e deputada federal do Brasil. Compuseram a bancada de juízas Sophie Dowlar, da Marcha Mundial das Mulheres no Quênia, Uli Arta Siagian, ativista da Indonésia, Nazely Vardanyan, da Armenian Forests, e Marisol Garcia, líder indígena Kichwa da Amazônia peruana. A diversidade geopolítica das magistradas reforçou o caráter internacional e popular do julgamento. As situações denunciadas foram tratadas como evidências de uma engrenagem global que combina racismo ambiental, violência de gênero, militarização, repressão política, exploração econômica e destruição ambiental. Para o Tribunal, essas violações formam um “continuum” que atravessa fronteiras e se intensifica com a crise climática, agravada pela omissão e pelo negacionismo de Estados com grande poder político e econômico. Depoimentos revelam a teia de violências que atravessa o Sul Global Os relatos apresentados ao Tribunal expuseram a interseção entre violência de gênero, invasão territorial, conflitos armados, crise climática, racismo, transfobia e destruição ambiental. Do Pará à Palestina, as mulheres e dissidentes sofrem, resistem às violações, ecoam os muitos gritos de dor e de esperança e seguem se organizando. Assalah Abu Khdeir, da Palestina, denunciou o genocídio imposto pelo Estado de Israel contra seu povo, onde mulheres e crianças são as maiores vítimas da fome, da falta de atendimento médico e da violência militar. Pediu o direito de viver com paz e autonomia. Do Haiti, Juslene Tyresias, da Via Campesina, relatou o avanço da violência física, psicológica e sexual provocado pela instabilidade política e pela atuação de gangues armadas. As mudanças climáticas aprofundam a crise e forçam o deslocamento de mulheres e meninas. A saharauí Chaba Siny reivindicou o direito à autodeterminação do povo do Saara Ocidental e denunciou a repressão marroquina. Afirmou que não existe justiça climática quando há ocupação militar e cerceamento das liberdades políticas de mulheres. Olivia Bisa Tirko, liderança indígena da Nação Chapra do Peru, acusou o Estado de pactuar com corporações responsáveis por ecocídio e violência contra defensores ambientais. Questionou por que três décadas de COPs foram incapazes de conter a crise climática. Do Brasil, Beku Gogti, mulher Xikrin e integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, relatou os impactos da contaminação dos rios causada pela Vale, que atinge especialmente gestantes e crianças de sua comunidade. Cledeneuza Bizerra, quebradeira de coco babaçu do Pará, denunciou a destruição de modos de vida tradicionais e o avanço do agronegócio sobre áreas de uso comum. Reafirmou que as mulheres rurais alimentam o mundo e que não se come dinheiro. A venezuelana Alejandra Laprea descreveu os efeitos devastadores do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que precariza a vida das mulheres responsáveis pelo cuidado e aumenta sua vulnerabilidade à violência. O caso da liderança mapuche Julia Chunil, desaparecida em 2024 enquanto defendia seu território de empresas do agronegócio, foi apresentado por María José Lubertino, que cobrou responsabilidade do Estado chileno por permitir que violações dessa gravidade ocorram. Da Amazônia paraense, Melisandra, da Casa Cura, expôs a violência estrutural que atinge mulheres trans. Denunciou o ódio, a transfobia, o racismo religioso e a negligência do Estado brasileiro, país que lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans. A escuta desses testemunhos, diante de uma plateia lotada, evidenciou que o neocolonialismo se apresenta hoje como projetos de investimento e ações climáticas que, na prática, desterritorializam povos e comunidades para garantir lucro a grandes corporações. As juízas destacaram que a omissão dos Estados é parte do problema e aprofunda a violação de direitos. Veredito vai além de recomendações e exige reparações Ao anunciar o resultado, as juízas destacaram que os perpetradores desses crimes são coletivos — Estados, corporações transnacionais e elites econômicas — e que as vítimas também são coletivas, pois atingem diretamente mulheres, dissidências, povos indígenas, comunidades negras, defensores de direitos humanos e organizações territoriais. Por isso, o Tribunal optou por um veredito que, em vez de se limitar a recomendar medidas, estabelece diretrizes para uma atuação internacional contínua. Entre elas, estão a exigência de justiça financeira pelas violações sofridas,

Redes globais de justiça climática denunciam roteiro vazio e acusam países do Norte de manipular narrativas na COP 30

No último dia da COP 30, as redes internacionais Demand Climate Justice (DCJ) e Climate Action Network International, que representam centenas de organizações ao redor do mundo, realizaram uma coletiva conjunta para denunciar publicamente o roteiro apresentado nas negocociações. As redes afirmam que o documento não traz compromissos reais de financiamento climático e vem sendo usado como ferramenta para bloquear as reivindicações mais urgentes dos povos do Sul Global. Lidy Nacpil, da Asian Peoples’ Movement on Debt and Development e integrante da DCJ, foi a porta-voz da declaração. As organizações explicaram que participaram ativamente das mobilizações que pressionaram por uma linguagem firme sobre a transição rápida, equitativa e justa para a saída dos combustíveis fósseis, inclusive na COP de Dubai. Segundo Lidy, nenhuma transição é possível sem financiamento climático e essa condição é ainda mais determinante para os países do Sul, que enfrentam desigualdades históricas agravadas pela crise climática. A crítica ao chamado roteiro ganhou força diante do que as redes classificam como uma tentativa do Norte Global de fabricar consenso e espalhar narrativas falsas. Para elas, o documento é vazio porque não apresenta compromissos concretos, não prevê mecanismos claros para garantir a transição justa e, ao contrário do que promete, bloqueia avanços em cada etapa das negociações. Além disso, afirmam que o roteiro vem sendo usado para paralisar outras pautas essenciais, como reparação, responsabilidade histórica e meios de implementação. No mesmo posicionamento, Nancy Kacungira reforçou que o roteiro ignora por completo as realidades enfrentadas pelas comunidades mais impactadas. “Esse documento não fala conosco nem para nós. Ele serve aos interesses de quem lucra com a destruição e tenta transformar nossas demandas legítimas em ruído político. Não aceitaremos isso”, afirmou. Lidy também contestou a narrativa que tenta atribuir aos países em desenvolvimento uma suposta falta de ambição climática. Para as redes, essa versão não corresponde à realidade e serve para deslocar responsabilidades de quem mais emite e mais lucra com a crise climática. A expectativa é que a COP 30 seja, de fato, a COP da verdade, como anunciado pela Presidência, e que isso implique reconhecer quem realmente está barrando avanços. A mensagem enviada pelas organizações foi direta. Sem financiamento climático claro e garantias concretas para uma transição justa, o roteiro apresentado não tem qualquer significado para os povos do Sul Global que já vivem os impactos mais severos da crise climática.

Fogo atinge área da COP30; Cúpula dos Povos e delegações em segurança após rápida evacuação

​Belém (PA), 20 de novembro de 2025 – Um princípio de incêndio foi registrado na tarde desta quinta-feira (20) em uma área da Zona Azul (Blue Zone) da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP30), em Belém. O incidente levou à evacuação imediata de participantes e equipes que se preparavam para as agendas da tarde. ​Detalhes do Incidente ​O fogo começou por volta das 14h (Horário Local) em uma parte do complexo que abriga as negociações oficiais. A brigada de incêndio da COP agiu imediatamente, e o Corpo de Bombeiros Militar do Pará foi acionado. ​Os responsáveis pela organização da COP30 informaram que o fogo foi prontamente controlado, evitando que se alastrasse para outras estruturas. Não há relatos de feridos, sendo apenas danos materiais na área afetada. ​Impacto nas agendas e evacuação ​No momento do incidente, a Cúpula dos Povos participaria de atividade programada. Tudo foi suspenso e todos os participantes da COP, incluindo as delegações da Cúpula dos Povos, autoridades e negociadores internacionais, foram evacuados do prédio da Zona Azul seguindo os protocolos de segurança. Foto:Agência Brasil

DENTRO DA COP30 *Liderança da Cúpula afirma que financiamento climático não é caridade, mas sim responsabilidade histórica e reparação.*

Em coletiva de imprensa dentro da zona azul da COP 30, a ativista indiana Rachitaa Gupta, integrante da campanha internacional Demand Climate Justice (DCJ) e da Comissão Política da Cúpula dos Povos sintetiza a urgência que marca as negociações climáticas neste momento decisivo rumo à COP30, em Belém. Para ela, os recursos destinados à adaptação, às perdas e danos e à transição para longe dos combustíveis fósseis devem ser públicos, baseados em doações e nunca em mecanismos que empurrem países e comunidades vulneráveis para novas dívidas por uma crise que não criaram. “Nossas comunidades não devem ser empurradas para dívidas ainda maiores por desastres que não causaram”, defende ao alertar que o atual cenário político global está marcado por retrocessos e por um esforço crescente das grandes potências econômicas para transferir riscos e responsabilidades aos países mais pobres. Segundo Rachitaa, ao mesmo tempo em que o discurso público dos países ricos aparenta compromisso climático, seus governos seguem priorizando interesses corporativos, fortalecendo mecanismos financeiros que oferecem pouco ou nenhum apoio real às populações na linha de frente dos impactos climáticos. As consequências são devastadoras, com programas de adaptação seguindo subfinanciados, medidas de prevenção falhas e comunidades mais afetadas em permanente exposição, tendo que reconstruir suas vidas repetidas vezes após eventos climáticos extremos. A ativista também chamou atenção para os impactos diferenciados da crise climática sobre mulheres, povos indígenas, trabalhadores e comunidades racializadas. Segundo ela, ignorar essas desigualdades produz políticas ineficientes e injustas. “Quando falamos de transição, precisamos falar sobre vidas. E algumas vidas continuam sendo tratadas como descartáveis”, afirmou. Rachitaa reforça que a transição energética não pode replicar desigualdades históricas e deve colocar as comunidades no centro da tomada de decisões — não apenas como beneficiárias, mas como lideranças e protagonistas. Outro ponto crítico levantado é a insistência de países do Norte Global em promover “soluções” que aprofundam o problema. Gupta citou, por exemplo, propostas baseadas em compensações de carbono, em créditos incertos e em modelos financeiros que se apresentam como inovadores, mas que transferem riscos para os países do Sul. Para ela, essas iniciativas desviam a atenção de medidas reais como cortar emissões na raiz, encerrar a era dos combustíveis fósseis e financiar de forma justa a transição global. “Vemos o mundo rico fazendo promessas com uma mão e retirando-as com a outra”, disse. A partir desse diagnóstico, Rachitaa reforçou que o financiamento climático adequado só será possível se os grandes emissores históricos assumirem sua responsabilidade. Entre os citados estão Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, União Europeia, Austrália e Japão. “A transição deve ser rápida, deve começar com quem causou a crise e deve ser financiada por eles”, destacou. Para ela, isso inclui três pilares fundamentais que são a adaptação, ainda perigosamente subfinanciada; perdas e danos, essenciais para que comunidades possam reconstruir casas, vidas e economias; e recursos suficientes para uma transição justa, capaz de afastar o mundo dos combustíveis fósseis sem sacrificar direitos sociais e ambientais. Cúpula mostra a força da mobilização global Em meio a esse cenário global, a Cúpula dos Povos realizada em Belém ganha tamanha relevância, segundo Rachitaa, por demonstrar que a força política vem das bases, dos territórios e das comunidades organizadas. A mobilização reuniu cerca de 24 mil pessoas em extensa programação de uma semana e marcha global por justiça climática colocando 70 mil nas ruas. O encontro, para ela, mostrou que existe um projeto claro de justiça climática construído coletivamente, enraizado nas experiências de quem já enfrenta há décadas os impactos socioambientais mais profundos. Essa mobilização, afirma, é o que pressiona governos, expõe contradições nas negociações internacionais e impede que soluções falsas avancem sem contestação. “A Cúpula dos Povos mostrou que não estamos sozinhos e que existe poder quando nos movemos juntos”, concluiu.

A carta que segura o céu: Líderes populares apresentam soluções da Cúpula dos Povos e cobram participação efetiva na COP30

Em um evento paralelo que ecoa o sucesso da Cúpula dos Povos, as vozes de comunidades de linha de frente do Brasil e do mundo se reuniram para debater a Declaração Final do encontro popular. O painel serviu para reforçar o recado: a solução para a crise climática já está nos territórios e o papel dos delegados da COP30 é finalmente escutar e agir. O encontro da Cúpula dos Povos, que reuniu mais de 24 mil participantes e culminou na histórica Marcha Global de 70 mil pessoas em Belém, posicionou-se como o verdadeiro palco da Justiça Climática. A carta Auricélia Arapiun, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), foi contundente ao dar o significado político do documento entregue aos negociadores: “Essa carta da cúpula é a carta que segura para o céu não desabar.” A líder indígena denunciou a falta de ambição dos governos e a violência contínua contra os guardiões da floresta. Ao citar a celebração da demarcação de 20 Terras Indígenas no Brasil, ela ressaltou que é preciso avançar ainda mais diante dos grandes conflitos vivenciados pelos povos indígenas. “Não basta só demarcar. É necessário que proteja também. É necessário que proteja quem protege.” Ela lembrou que a matança de lideranças indígenas é um genocídio que se esquenta no Brasil, com mais de 200 mortes registradas em um ano, e exige que tratados internacionais como a Convenção 169 da OIT sejam efetivamente considerados pelos governos. Nilce Pontes, da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), defendeu que o resultado da Cúpula dos Povos demonstrou a capacidade de mobilização e enfrentamento da injustiça climática. Nilce reforçou a exclusão dos povos dos processos de negociação e a necessidade de que a defesa do meio ambiente inclua o sujeito. “Sem território não é possível discutir mudanças, adaptação e resiliência climática”, declarou. Pressão popular como fator de mudança O evento serviu também para traçar o caminho a seguir. Jesus Vazquez, da La Via Campesina, sublinhou a necessidade de uma análise que destaque a vulnerabilidade das pessoas mais afetadas – a classe trabalhadora e os periféricos – e que aponte o dedo para os verdadeiros responsáveis pela crise: “corporações internacionais” e “governos imperialistas”. O moderador Pablo Neri (MST) celebrou o sucesso da Cúpula – incluindo a Marcha Global, a Barqueata e o Banquetaço, que serviu mais de 300 mil refeições agroecológicas – e a satisfação coletiva com o trabalho realizado. A mensagem final, ecoada por Auricélia Arapiun, é de união e clareza: “Nós mudamos apenas de endereço, mas nós estamos numa aldeia só. Então, os nossos problemas são iguais. E a resposta está em nós.” A Declaração da Cúpula é vista como a “solução” clara para a humanidade, dependendo agora da vontade política dos governos de recebê-la e garantir a participação efetiva dos povos nas decisões.

La carta que sostiene el cielo: Los líderes populares presentan soluciones de la Cumbre de los Pueblos y exigen una participación efectiva en la COP30.

En un evento paralelo que reflejó el éxito de la Cumbre de los Pueblos, las voces de las comunidades más afectadas por el cambio climático en Brasil y en todo el mundo se reunieron para debatir la Declaración Final de la reunión popular. El panel sirvió para reforzar el mensaje: la solución a la crisis climática ya se encuentra en los territorios, y el papel de los delegados de la COP30 es, por fin, escuchar y actuar. La Cumbre de los Pueblos, que congregó a más de 24.000 participantes y culminó con la histórica Marcha Mundial de 70.000 personas en Belém, se posicionó como el verdadero escenario para la Justicia Climática. La carta Auricélia Arapiun, de la Articulación de los Pueblos Indígenas de Brasil (APIB), expresó con contundencia el significado político del documento entregado a los negociadores: «Esta carta de la cumbre es la carta que nos sostiene para que el mundo no se desplome». La líder indígena denunció la falta de ambición de los gobiernos y la violencia constante contra los guardianes del bosque. Citando la celebración de la demarcación de 20 Tierras Indígenas en Brasil, subrayó la necesidad de avanzar aún más ante los graves conflictos que sufren los pueblos indígenas. “No basta con demarcar. También es necesario proteger. Es necesario proteger a quienes protegen”. Recordó que el asesinato de líderes indígenas constituye un genocidio que se agrava en Brasil, con más de 200 muertes registradas en un año, y exige que los gobiernos consideren de manera efectiva tratados internacionales como el Convenio 169 de la OIT. Nilce Pontes, de la Coordinación Nacional de Articulación de las Comunidades Rurales Quilombolas Negras (CONAQ), argumentó que los resultados de la Cumbre de los Pueblos demostraron la capacidad de movilización y confrontación ante la injusticia climática. Nilce recalcó la exclusión de los pueblos indígenas de los procesos de negociación y la necesidad de que la defensa del medio ambiente incluya a la persona. «Sin territorio, es imposible hablar de cambio climático, adaptación y resiliencia», declaró. La presión popular como factor de cambio El evento también sirvió para trazar el camino a seguir. Jesús Vázquez, de La Vía Campesina, enfatizó la necesidad de un análisis que destaque la vulnerabilidad de las personas más afectadas —la clase trabajadora y las personas marginadas— y que señale a los verdaderos responsables de la crisis: las «corporaciones internacionales» y los «gobiernos imperialistas». El moderador Pablo Neri (MST) celebró el éxito de la Cumbre —incluyendo la Marcha Mundial, el Desfile de Barcos y el Banquete, donde se sirvieron más de 300.000 comidas agroecológicas— y la satisfacción colectiva con el trabajo realizado. El mensaje final, compartido por Auricélia Arapiun, es de unidad y claridad: «Solo hemos cambiado de dirección, pero seguimos en el mismo pueblo. Por lo tanto, nuestros problemas son los mismos. Y la respuesta está en nosotros». La Declaración de la Cumbre se considera la “solución” clara para la humanidad, y ahora depende de la voluntad política de los gobiernos para aceptarla y garantizar la participación efectiva del pueblo en las decisiones.

Saiu na imprensa: Fora das negociações oficiais, justiça de gênero ganha força nas ruas de Belém.

Cúpula dos Povos entrega carta com 15 pontos ao presidente da COP30 e reafirma que justiça climática passa por justiça feminista Autora: Flávia Santos Edição: Jane Fernandes e Mariana Rosetti “Queremos um mundo com justiça feminista” pede a Carta dos Povos, documento produzido pela Cúpula dos Povos, que reuniu mais de 23 mil pessoas credenciadas entre 12 e 16 de novembro na Universidade Federal do Pará (UFPA). O documento, que traz 15 pontos que sintetizam as demandas dos movimentos populares do mundo todo para o enfrentamento da crise climática, foi entregue ao embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30. O texto é resultado de uma mobilização iniciada ainda em 2024, reunindo movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e organizações da sociedade civil para pressionar pela participação política efetiva nas discussões climáticas. Se a justiça de gênero segue às margens das negociações oficiais das conferências do clima, como AzMina mostrou neste texto, nas ruas de Belém a história é outra. O documento final foi construído durante a conferência, através de seis eixos de convergência que pautaram os debates e assembleias ao longo da semana. Um deles foi especificamente dedicado ao “feminismo popular e resistências das mulheres nos territórios“, onde se discutiu como a crise climática impacta de forma diferenciada a vida das mulheres e como elas têm sido protagonistas nas soluções construídas. “Nossos corpos e territórios são alvos de ataques, mas também são espaços de cuidado e de força. Somos nós que sustentamos a vida nas comunidades, que cuidamos da terra, da água, da casa e dos mais velhos. Falar de justiça climática é falar também de justiça de gênero, de raça e de território”, declarou Ediene Kirixi, liderança do povo Munduruku, em um dos eventos da Cúpula dos Povos. Os outros cinco eixos abordaram territórios vivos e soberania alimentar; reparação histórica e combate ao racismo ambiental; transição justa e inclusiva; democracia e internacionalismo dos povos; e cidades justas e periferias urbanas. Mulheres na carta A Carta dos Povos foi entregue ao embaixador da COP no domingo (17). Na introdução, o texto aborda a realidade das mulheres e afirma que “as comunidades periféricas são as mais afetadas pelos eventos climáticos extremos e o racismo ambiental” e enfrentam “a falta de ações de justiça e reparação, em especial às mulheres, jovens, pessoas empobrecidas e não brancas.“ Racismo ambiental é o termo que descreve como populações negras, indígenas e empobrecidas são desproporcionalmente expostas a riscos ambientais – vivem mais perto de lixões, áreas de deslizamento, regiões alagáveis e zonas contaminadas. Dados mostram que essas comunidades são as que mais perdem suas casas, seus meios de sustento e, muitas vezes, suas vidas quando um desastre climático acontece. Nesse contexto, as mulheres carregam o peso adicional de garantir a sobrevivência da família em meio ao caos. Segundo o Censo Demográfico 2022, a população residente em Favelas e Comunidades Urbanas no Brasil é 51,7% feminina. Entre os 15 tópicos de reivindicações, o nono é dedicado inteiramente ao trabalho de cuidado, majoritariamente feminino. “Os trabalhos de reprodução da vida devem ser visibilizados, valorizados, compreendidos como o que são – trabalho – e compartilhados no conjunto da sociedade e com o Estado.” Além disso, mulheres não devem ser responsabilizadas individualmente pelo cuidado, reforça a carta. Não por acaso, entre as pessoas que declaram realizar trabalho doméstico e/ou de cuidados remunerados, 93,9% são mulheres e apenas 6,1% são homens, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O bloco finaliza dizendo: “queremos um mundo com justiça feminista, autonomia e participação das mulheres”. Ao longo de todo o documento, a palavra “mulheres” aparece cinco vezes. Além dos pontos mencionados, ela surge na lista de grupos que participaram da construção da Cúpula, na denúncia do genocídio palestino que atinge majoritariamente crianças, mulheres e idosos, e novamente no ponto sobre autonomia e participação feminina. Pautas que se cruzam com as de gênero A carta perpassa questões que se interseccionam com as discussões de gênero, mesmo quando não as nomeia explicitamente. “Não há vida sem natureza. Não há vida sem a ética e o trabalho de cuidados. Por isso, o feminismo é parte central do nosso projeto político“, diz o documento. A soberania alimentar, por exemplo, é uma das principais pautas da carta e tem tudo a ver com a vida das mulheres. O conceito parte do pressuposto de que não basta ter comida suficiente, mas é necessário ter controle sobre como essa comida é produzida, distribuída e consumida. São as mulheres camponesas, indígenas e quilombolas que guardam as sementes crioulas, que mantêm os conhecimentos tradicionais sobre plantio e colheita, que garantem a alimentação das comunidades. Quando a carta reivindica “reforma agrária popular e fomento à agroecologia para garantia da soberania alimentar“, está falando diretamente do trabalho dessas mulheres. A transição justa é outro termo que aparece com força no documento. A proposta não é simplesmente trocar combustíveis fósseis por fontes renováveis mantendo a mesma lógica de exploração. A transição energética justa exige que os trabalhadores e comunidades afetadas sejam protagonistas do processo e tenham seus direitos garantidos. Mobilização nas ruas A pauta de gênero também se fez presente nas ruas de Belém, cidade sede da COP30. No último sábado (15), a Marcha Global por Justiça Climática reuniu milhares de pessoas. A manifestação reuniu povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, estudantes, sindicalistas e ativistas de mais de 60 países. Kirtana Chandrasekaran, diretora executiva da Friends of the Earth International, contou que foi à marcha em solidariedade às milhares de pessoas que participavam. “Sabemos que estamos lutando contra o mesmo sistema. O sistema capitalista, patriarcal, colonialista e imperialista que está causando a crise que vemos hoje”, comentou. No domingo (16), a Cúpula realizou o Banquetaço na Praça da República, com distribuição gratuita de alimentos à população. O ato, organizado em parceria com movimentos de segurança alimentar, serviu refeições preparadas com alimentos que seriam descartados por feiras e supermercados, mas que ainda eram próprios para consumo. A barqueata, manifestação em barcos, realizada quarta-feira (12), reuniu mulheres indígenas, quilombolas, ribeirinhas, pescadoras e moradoras de

Cúpula dos Povos leva vozes da linha de frente para a Blue Zone da COP30

Cúpula dos Povos leva vozes da linha de frente para a Blue Zone da COP30 Dia: 18/11/25 Hora: 18:30 às 20:00 Local: Side Event Room 6 (Hangar), Bluezone. EVENTO PARALELO | OS VERDADEIROS LÍDERES DA LUTA CONTRA AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS: Movimentos Sociais de Linha de Frente que Defendem o Clima e a Justiça Social. A Cúpula dos Povos rumo à COP30, que reuniu mais de 24 mil participantes e levou 70 mil pessoas às ruas de Belém na Marcha por Justiça Climática, realizará um evento paralelo oficial na Blue Zone da COP30, trazendo as vozes dos territórios e dos movimentos sociais que constroem, na prática, a luta pela vida, pelo clima e pela justiça social. Após uma mobilização histórica que envolveu centenas de organizações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, costeiras, sindicais, feministas, juventudes, infâncias e movimentos populares de todo o mundo, este encontro dentro da COP30 será um espaço para reforçar coletivamente os resultados políticos da Cúpula, aprofundar o sentido da Declaração da Cúpula dos Povos e projetar as batalhas centrais rumo à COP30. PROGRAMAÇÃO DO PAINEL Moderação: Pablo Neri – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) Porta-vozes — Declaração da Cúpula dos Povos: Nilce Pontes – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) Roquin Siongo (Grassroots Global Justice / Micronesia Climate Alliance – Pacífico) Sophie Dowlar (World March of Women) Porta-vozes — O que vem pela frente: Auricélia Arapiun – Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) Jesús Vázquez (La Vía Campesina)