Das mãos das irmãs Lúcia e Nazaré Reis, e de outras mãos que semeiam juntas, veio um dos avanços da COP na Amazônia: a comida-território que encheu os pratos do mundo com solução climática. Pela primeira vez na história das conferências do clima, a alimentação foi porta-voz da transição e da justiça que documentos oficiais ainda não entregam. Apesar do lobby do agronegócio que invadiu Belém e do racismo alimentar que partiu da própria organização da COP30, a agroecologia deixou seu legado.
Lúcia, psicopedagoga, tem 74 anos; ela entrega prosa e farofa das boas. Nazaré, agrônoma, tem 72; partilha amor e luta pela terra. As irmãs fazem parte da Rede Bragantina de Economia Solidária, Artes e Sabores, que reúne mais de 2 mil famílias da agricultura familiar e suas associações, de 11 municípios do nordeste do Pará, com produções sem corte, sem queima e sem veneno. Uma parceria entre a Rede Bragantina e a Central do Cerrado, formada por cooperativas do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia, deu vida ao restaurante da Sociobio, levando o que brota dos biomas para dentro da COP30.
A prioridade do restaurante era atender voluntários e trabalhadores – após as 14 horas, a entrada era liberada a qualquer pessoa. Por isso, começou antes e terminou depois da COP, servindo cerca de 80 mil refeições ao longo desse período. Em cinco semanas de operação, foram cerca de 100 toneladas de alimentos comprados, mais de 75% deles vindos de 60 organizações de agricultores familiares e de povos e comunidades tradicionais. O bandejão da diversidade ia do pirarucu de manejo sustentável do Médio Juruá, Amazonas, ao arroz do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Rio Grande do Sul. A refeição incluía um copo de suco e custava 40 reais – um preço mais acessível dentro do espaço da Zona Azul, onde a comida era bem mais cara.
A Rede Bragantina também levou seus sabores à Cúpula dos Povos, o banzeiro popular que misturou mais de mil organizações sociais do mundo em barqueata, marcha e atividades paralelas à COP oficial. A cúpula terminou num domingo com um banquetaço em praça pública. Lá estava a Rede Bragantina junto a outros sete grupos de mulheres agroextrativistas, agricultoras familiares, Quilombolas, dos terreiros de matriz africana, das periferias urbanas. Uma tonelada e meia de alimentos vertidos em receitas da cultura alimentar amazônica foi distribuída a cerca de 2 mil pessoas que se enfileiraram até o cair da noite. Só de açaí foram 500 litros.
A militante do MST Beatriz Luz participou da organização do banquetaço, que, além de comida, entregou um projeto de mundo possível. “A gente sentiu um diálogo com a cidade muito forte. E conseguiu posicionar o banquete público enquanto ato político, oferecer comida e, a partir disso, demonstrar que a gente tem capacidade de alimentar a sociedade. A gente precisa de política pública, a gente precisa de territórios vivos, a gente precisa de cozinha solidária ativa.”
Beatriz também fez parte da cozinha solidária da Cúpula dos Povos, tocada pelo MST junto com o Movimento Camponês Popular e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto. Cozinha solidária é uma tecnologia dos movimentos sociais, do povo que planta a comida e mata a fome. O acesso ao Programa de Aquisição de Alimentos, do governo federal, garantiu a compra de 86 toneladas de insumos agroecológicos e comida gratuita para a gente de luta mobilizada na Cúpula. Os alimentos não utilizados foram doados a outras cozinhas solidárias do Pará.
Sem o gado do agronegócio, a Cúpula dos Povos trouxe a defesa dos territórios por soberania alimentar, que é parte da resistência contra a emergência climática. “Pra nós, a mudança climática não pode ser vista de forma isolada, dissociada de um conjunto de crises produzidas pelo sistema capitalista. E a principal medida de qualquer política de enfrentamento a esse sistema de crises é reforma agrária, é demarcação de terra, é regularização fundiária”, defende Beatriz.
Agronegócio faz do sistema alimentar um problema climático
Um dos agentes das crises que adoecem o planeta, o agronegócio montou seu teatro na AgriZone, espaço da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa. Entre os patrocinadores estavam o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, mantido pela Confederação da Agricultura e Pecuária no Brasil (CNA) – a mesma que, no final de novembro, acionou o Supremo Tribunal Federal contra as novas demarcações de Terras Indígenas anunciadas pelo governo durante a COP –, e a fabricante de agrotóxicos Bayer. No país que mais consome veneno agrícola no mundo, o Congresso brasileiro, depois de matar o licenciamento ambiental, agora tenta suspender o Programa Nacional de Rastreabilidade de Agrotóxicos e Afins.
O agronegócio, herdeiro dos latifúndios coloniais baseados em monoculturas e na exploração de pessoas escravizadas, é uma das mais poderosas forças de captura da política nacional e o principal vetor que torna o sistema alimentar um grande problema para o clima. Sistema alimentar é um conceito que discute o caminho desde a produção, passa por processamento, distribuição e consumo, e chega até o descarte dos alimentos.
O sétimo relatório Perspectivas do Meio Ambiente Global, GEO-7, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, publicado este mês, aponta a transformação do sistema alimentar entre os cinco caminhos necessários para tornar o planeta saudável e sustentável. O documento afirma que o atual sistema alimentar é insustentável e está entre os principais impulsionadores das mudanças do clima, da perda de biodiversidade, da degradação do solo e da poluição. Enquanto isso, bilhões de pessoas não têm acesso à alimentação nutritiva o suficiente e acabam tendo de enfrentar a fome.
Um terço das emissões globais de gases de efeito estufa vem do sistema alimentar. O Brasil é o segundo maior emissor do mundo por esse quesito, atrás apenas da China, conforme dados levantados pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis. Culpa das mudanças no uso da terra – causadas majoritariamente pelo desmatamento – e da atividade agropecuária – em grande parte por conta do gás metano liberado no chamado “arroto do boi”, em decorrência da fermentação no processo digestivo do animal.
Apesar de sua importância, por muito tempo o sistema alimentar foi um tema secundário nas conferências do clima. Quando aparecia, a discussão era capturada pelo agronegócio. A agenda popular de soberania alimentar e agroecologia ficava travada. Para Fabrício Muriana, do Instituto Regenera, que atua para fortalecer sistemas alimentares regenerativos e é entidade observadora das negociações nas COPs, não tratar sobre os danos que o sistema alimentar vem causando seria tão grave quanto foi a autorização para exploração de petróleo na Foz do Rio Amazonas concedida pouco tempo antes da COP de Belém.
Nos principais documentos da agenda de negociação, o sistema alimentar continuou sem destaque. O observador considera que houve avanços trazidos pela agenda de ação da COP30. Um deles foi a Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática, em que o Brasil, outros 42 países e a União Europeia se comprometem a apoiar pequenos produtores de alimentos e a levar transição justa a povos da Floresta e de ecossistemas sensíveis. Outro, ainda como intenção, aparece no Plano de Aceleração de Soluções Terra, que trata de agroecologia e agrofloresta e reconhece a importância de agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais na transformação dos sistemas alimentares. Já o Raiz, Plano para Investimento em Agricultura Resiliente para a Degradação Zero de Terras, esforço global para financiar a restauração de terras agrícolas degradadas, não resolve o problema de forma equitativa.
O salto maior, que levou até a conferência do clima alimentos da sociobiodiversidade, veio após meses de pressão do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e de uma coalizão da sociedade civil, com a campanha Na Mesa da COP30. Foi criada uma governança, desde 2024, envolvendo o Instituto Comida do Amanhã e ministérios para que a produção agroecológica tivesse espaço.
Na COP29, em Baku, no Azerbaijão, o governo federal antecipou que a agricultura familiar seria priorizada em Belém. O anúncio oficial de que pelo menos 30% dos alimentos adquiridos pelos restaurantes teriam de vir da agroecologia foi feito em junho deste ano, durante a reunião preparatória de Bonn, na Alemanha.
Segundo Fabrício, a presença da sociobiodiversidade poderia ter sido ainda maior se o governo tivesse cruzado a demanda de insumos que os restaurantes entregam à organização da COP com um mapeamento apresentado pela sociedade civil de 80 redes, associações e cooperativas locais, indicando a produção que ofertam. A opção acabou sendo apostar em grandes fretes de redes agroecológicas do país, deixando escapar a chance de abrir mais portas para pequenos agricultores da Amazônia, no que poderia ser um piloto de política pública para abastecer, por exemplo, a alimentação escolar da região.
SUMAÚMA questionou a organização da COP30 no governo federal sobre o motivo de não ter considerado o mapeamento da agricultura familiar local. A resposta pontua que o Ministério do Desenvolvimento Agrário integrou contribuições da sociedade civil aos levantamentos da Companhia Nacional de Abastecimento, do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e do Programa de Aquisição de Alimentos. Diz ainda que esse conjunto de informações subsidiou a identificação da oferta de produtores e cooperativas locais, considerando critérios como “rastreabilidade, segurança alimentar, disponibilidade e volume produtivo, capacidade logística, sazonalidade e requisitos sanitários”. E que o percentual de compras da agricultura familiar superou os 30%.
Mesmo com a abertura aos alimentos saudáveis e diversos da lida camponesa, a postura agrocentrada seguiu dando as ordens na ONU. Com o restaurante da Sociobio já em operação, de acordo com fontes ouvidas por SUMAÚMA, pessoas ligadas à Convenção das Nações Unidas sugeriram que era necessário incluir no cardápio carne de gado. O restaurante resistiu e não levou para dentro da COP umas das principais fontes de emissão da Amazônia.
Racismo contra a cultura alimentar
Em agosto, o edital para seleção de restaurantes e quiosques das zonas oficiais, numa contradição com os avanços que ali mesmo garantiam prioridade à comida dos territórios, trouxe uma lista de alimentos proibidos, considerada racista por muitos amazônidas. Excluía da COP preparos populares e ancestrais da cultura alimentar local: o açaí – por “risco de contaminação” –, o tucupi e a maniçoba – pela possibilidade de conterem “toxinas naturais”.
A gente branca que define os padrões de tudo achou por bem tratar a alimentação da Amazônia como perigosa, quando o perigo real está nos padrões globais que fazem comida virar mercadoria ultraprocessada e envenenada. A chefe de cozinha e guardiã da cultura alimentar Tainá Marajoara uniu sua indignação a outras vozes e protestou nas redes: “Os nossos alimentos são proibidos porque os nossos povos são proibidos”. A proibição acabou cancelada.
Tainá vem de uma família de Cachoeira do Arari, no Marajó. Ao contrário de uma história oficial que narra o desaparecimento indígena do arquipélago, viveu em casa a presença viva dos povos. A bisavó era uma sábia da pajelança Caruana. A avó foi levada para o fundo das águas quando o navio Correio do Arari naufragou. Tainá era menina. Depois do naufrágio, passou uns 15 anos sem conseguir atravessar a baía que leva às ilhas. Mas voltou. Voltou para trabalhar com a cozinha ancestral. Voltou para virar Tainá Marajoara.
No centro histórico de Belém, Tainá e seu companheiro, Carlos Ruffeil, mantêm o ponto de cultura alimentar Iacitatá. Foi lá que conversamos, entre uma garfada e outra na maniçoba moqueada preparada pelas mulheres da colônia Chicano, comunidade tradicional de Santa Bárbara do Pará.
Tainá comentou como as COPs são historicamente excludentes e, apesar de o Brasil assumir o papel de ampliar a participação social, ainda não é o suficiente diante da reparação necessária e da contribuição dos povos para uma solução climática. “São muitos anos de colonialismo que nos impedem de acessar espaços, que impõem um racismo sobre os nossos conhecimentos e as nossas tecnologias, inclusive sobre a nossa alimentação”, afirmou.
O Iacitatá foi um dos restaurantes selecionados para ocupar a Zona Azul da COP. Tainá Marajoara levou lá para dentro uma parte da vasta cultura alimentar amazônica. Tinha o tucupi, a maniçoba e o açaí que tentaram proibir, mas também peixes, mariscos, hortaliças, farinhas-d’água, de carimã, de tapioca. Ela se orgulha de servir uma comida que não mata nem por doença nem por conflito. Uma comida que garante a vida de quem come, dos territórios e do planeta.
“A gente está falando de produções que trazem contribuições climáticas, neutralizadoras de carbono, mas também sociais, que garantem a permanência nos territórios e a autodeterminação dos povos. São territórios que mantêm nascentes vivas, córregos limpos, não vão contaminar com agrotóxicos, pesticidas e outros químicos. Não são produções que utilizam sementes transgênicas. As nossas práticas não trazem assassinatos, não trazem extinção de ecossistemas, não trazem contaminação de pessoas”, frisa Tainá.
Da sociobiodiversidade amazônica para o mundo
Foi simbólico ver a revolução da comida-território dentro da conferência do clima da ONU acontecer justamente durante a primeira COP na Amazônia. A dança entre os sabores vastos da Floresta e dos rios e os saberes ancestrais dos povos é a base da cozinha amazônica. Os pratos marcantes de Belém vêm do encontro que forma esta palavra comprida chamada sociobiodiversidade. O que avança cada vez mais sobre os territórios na Amazônia, contudo, é seu avesso. Um tipo de cultivo sem povos, sem vidas, sem diversidade.
A historiadora da alimentação e professora da Universidade Federal do Pará Sidiana Macêdo conta que produções como a de farinha mantêm profundo vínculo com o conhecimento dos povos indígenas, que há 11 mil anos domesticavam a mandioca. A cultura alimentar amazônica depende de territórios vivos. “A cozinha no Pará é uma cozinha de território. Se nós formos olhar os nossos pratos, eles vêm de onde? Ou vêm da Floresta, ou vêm do rio. Essa característica nos liga à ancestralidade. Se a gente não preserva esses saberes, a gente está passando por cima da nossa própria história”, diz a professora.
Desde 2015, Belém é reconhecida como Cidade Criativa da Gastronomia pela Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Só que os territórios e os povos não são convidados para sentar a essa mesa. Eles chegam à cidade pelas feiras, junto com a Floresta que é comida e remédio. No Mercado Ver-o-Peso estão, há mais de 50 anos, Antônia Siqueira, espremendo a mandioca que vem da terra para tirar o tucupi e moendo as folhas para fazer a maniva, e Osvaldina Ferreira, temperando, fritando e servindo os peixes que vêm do rio.
Às sextas, em outro ponto da cidade, Elizete Cardoso vira feirante. Antes de montar a banca, ela e outros 47 agricultores familiares da comunidade tradicional Campo Limpo, ramal Bom Jesus, em Santo Antônio do Tauá, roçam chicória, plantam mandioca, apanham cacho de pupunha. Com a colheita da semana, Elizete pega 75 quilômetros de estrada para levar comida saudável até a mesa da freguesia em Belém. “A gente está trazendo também conhecimento da nossa comunidade.”
A vida das irmãs Nazaré e Lúcia Reis, da Rede Bragantina, é dedicada a fazer da agroecologia um projeto de sociedade contra a destruição e o adoecimento gerados pelo agronegócio. As cozinhas dos povos da Amazônia e de outros biomas do Brasil, dentro e fora da COP30, entregaram ao mundo o mapa do caminho para essa transformação radical, que alcança a raiz envenenada que nos ameaça como espécie e planeta. Das mãos de Lúcia e Nazaré, as partes da Convenção do Clima receberam sabores e o legado que agora precisam levar adiante.
Reportagem e texto: Guilherme Guerreiro Neto
Edição: Fernanda da Escóssia
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Caroline Farah
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Montagem de página e acabamento: Natália Chagas
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
Reprodução do portal Sumaúma, com foto de Breno Ortega (MST). Confira o original AQUI.
