Em coletiva de imprensa dentro da zona azul da COP 30, a ativista indiana Rachitaa Gupta, integrante da campanha internacional Demand Climate Justice (DCJ) e da Comissão Política da Cúpula dos Povos sintetiza a urgência que marca as negociações climáticas neste momento decisivo rumo à COP30, em Belém. Para ela, os recursos destinados à adaptação, às perdas e danos e à transição para longe dos combustíveis fósseis devem ser públicos, baseados em doações e nunca em mecanismos que empurrem países e comunidades vulneráveis para novas dívidas por uma crise que não criaram.
“Nossas comunidades não devem ser empurradas para dívidas ainda maiores por desastres que não causaram”, defende ao alertar que o atual cenário político global está marcado por retrocessos e por um esforço crescente das grandes potências econômicas para transferir riscos e responsabilidades aos países mais pobres.
Segundo Rachitaa, ao mesmo tempo em que o discurso público dos países ricos aparenta compromisso climático, seus governos seguem priorizando interesses corporativos, fortalecendo mecanismos financeiros que oferecem pouco ou nenhum apoio real às populações na linha de frente dos impactos climáticos. As consequências são devastadoras, com programas de adaptação seguindo subfinanciados, medidas de prevenção falhas e comunidades mais afetadas em permanente exposição, tendo que reconstruir suas vidas repetidas vezes após eventos climáticos extremos.
A ativista também chamou atenção para os impactos diferenciados da crise climática sobre mulheres, povos indígenas, trabalhadores e comunidades racializadas. Segundo ela, ignorar essas desigualdades produz políticas ineficientes e injustas. “Quando falamos de transição, precisamos falar sobre vidas. E algumas vidas continuam sendo tratadas como descartáveis”, afirmou.
Rachitaa reforça que a transição energética não pode replicar desigualdades históricas e deve colocar as comunidades no centro da tomada de decisões — não apenas como beneficiárias, mas como lideranças e protagonistas.
Outro ponto crítico levantado é a insistência de países do Norte Global em promover “soluções” que aprofundam o problema. Gupta citou, por exemplo, propostas baseadas em compensações de carbono, em créditos incertos e em modelos financeiros que se apresentam como inovadores, mas que transferem riscos para os países do Sul.
Para ela, essas iniciativas desviam a atenção de medidas reais como cortar emissões na raiz, encerrar a era dos combustíveis fósseis e financiar de forma justa a transição global. “Vemos o mundo rico fazendo promessas com uma mão e retirando-as com a outra”, disse.
A partir desse diagnóstico, Rachitaa reforçou que o financiamento climático adequado só será possível se os grandes emissores históricos assumirem sua responsabilidade. Entre os citados estão Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, União Europeia, Austrália e Japão.
“A transição deve ser rápida, deve começar com quem causou a crise e deve ser financiada por eles”, destacou.
Para ela, isso inclui três pilares fundamentais que são a adaptação, ainda perigosamente subfinanciada; perdas e danos, essenciais para que comunidades possam reconstruir casas, vidas e economias; e recursos suficientes para uma transição justa, capaz de afastar o mundo dos combustíveis fósseis sem sacrificar direitos sociais e ambientais.
Cúpula mostra a força da mobilização global
Em meio a esse cenário global, a Cúpula dos Povos realizada em Belém ganha tamanha relevância, segundo Rachitaa, por demonstrar que a força política vem das bases, dos territórios e das comunidades organizadas. A mobilização reuniu cerca de 24 mil pessoas em extensa programação de uma semana e marcha global por justiça climática colocando 70 mil nas ruas.
O encontro, para ela, mostrou que existe um projeto claro de justiça climática construído coletivamente, enraizado nas experiências de quem já enfrenta há décadas os impactos socioambientais mais profundos. Essa mobilização, afirma, é o que pressiona governos, expõe contradições nas negociações internacionais e impede que soluções falsas avancem sem contestação. “A Cúpula dos Povos mostrou que não estamos sozinhos e que existe poder quando nos movemos juntos”, concluiu.
