El Informante
13 de novembro de 2025
Há movimento em Belém. De um lado, a cúpula oficial, inaugurada ontem (10N, ndr.), onde durante duas semanas as delegações dos países discutirão se é possível avançar em termos de mitigação, financiamento e mecanismos para uma transição justa. De outro, diversos fóruns e espaços de encontro em que organizações e grupos sociais de todo o mundo, especialmente da América Latina, tentam nestes dias revitalizar alianças internacionalistas para enfrentar a ofensiva extrativista global.
Desde o início, na verdade, não se pode esperar muito. Durante tempo demais, as COPs se transformaram em um ritual pelo qual desfilam os principais líderes mundiais — nesta ocasião, nem sequer os dos países com maiores emissões China, Estados Unidos, Índia e Rússia — para emitir solenes declarações de intenção e promover novos mecanismos que, quando as cortinas das cúpulas se fecham, não se traduzem de forma efetiva em cronogramas e orçamentos. “Não queremos que seja um mercado de produtos ideológicos, queremos algo muito sério e que as decisões sejam aplicadas”, afirmou o presidente do Brasil, ao reconhecer as ineficiências de alguns dos vértices que oscilam entre o greenwashing e o negócio como sempre.
No segundo espaço, porém, é possível encontrar esperanças renovadas. Em paralelo à COP 30 — ou poderíamos dizer, em contraste com a cúpula oficial — uma multidão de organizações e movimentos indígenas, ambientalistas, sindicais, feministas e anticapitalistas se reuniu em Belém para repensar estratégias e reativar instâncias internacionais capazes de fortalecer os processos de luta e resistência. Seguindo a experiência do Fórum Social Mundial e os esforços para superar as contradições dos governos progressistas, o objetivo é promover processos de auto-organização comunitária que renovem o tecido social e olhem para além das constantes demandas dirigidas ao Estado.
Cúpulas populares
As cúpulas populares acontecem há trinta anos no marco das cúpulas climáticas promovidas pelas Nações Unidas. Neste ano, após três edições da COP realizadas em países marcados pela criminalização do direito ao protesto e pela perseguição a ativistas e organizações críticas aos governos, o interesse dos grupos sociais por esse espaço foi retomado. Na Cúpula dos Povos, em Belém, haverá representantes de mais de 1.200 organizações de todo o mundo, reunidas em torno de um objetivo comum “fortalecer a mobilização popular e convergir em agendas únicas socioecológicas, antipatriarcais, anticapitalistas, antirracistas e anticoloniais, baseadas nos direitos humanos, e em um manifesto”.
A cúpula nacional começará amanhã, 12 de novembro, com uma marcha fluvial de mais de 200 embarcações, reunindo cerca de 5.000 pessoas. Com essa caravana náutica, os movimentos participantes dessa cúpula alternativa “se uniram para fazer ecoar pelas águas um grito de condenação às decisões da ZP que perpetuam este modelo de exploração territorial”. Como afirmou um dos porta-vozes da iniciativa, “as águas da Amazônia trazem vozes que o mundo precisa escutar as que defendem a vida, os territórios e o clima”.
Dezenas de debates, oficinas e assembleias que acontecerão ao longo de quatro dias no âmbito da Cúpula dos Povos culminarão no sábado, 15 de novembro, com grandes manifestações, seguidas de ações descentralizadas em muitos outros países. No domingo, dia 16, as demandas da Cúpula Nacional serão apresentadas no plenário da Comunidade de Prática.
Neste evento, o maior de todos os que reunirão ativistas e organizações sociais em torno da COP 30, um dos temas que certamente estará em debate é a relação do movimento com os governos progressistas. Há apenas três semanas, a empresa estatal Petrobras recebeu autorização do governo Lula para explorar petróleo em águas profundas a cerca de 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. Em uma cidade decorada para a ocasião com milhares de cartazes publicitários coloridos que enfatizam a importância do cuidado com a Amazônia, a distância entre a retórica habitual do capitalismo verde e a sempre adiada urgência de transformar a matriz de exportações primárias voltará a ficar evidente.
Mas este não é, de forma alguma, o único espaço que ocorre em Belém à margem das iniciativas patrocinadas pelo governo brasileiro. Entre os dias 8 e 11 de novembro, aconteceu o II Encontro Ecossocialista da América Latina e do Caribe, no qual duzentos ativistas de diferentes países se reuniram para, a partir da experiência das lutas contra o saque territorial, pensar estratégias de fortalecimento de uma frente internacionalista comum capaz de enfrentar a crise socioecológica. Da mesma forma, entre 7 e 12 de novembro, ocorreu o IV Encontro Internacional de Atingidos por Barragens, resultado de um processo de coordenação internacional da luta comunitária contra grandes barragens e usinas hidrelétricas que já dura três décadas.
Povos contra o extrativismo
Em um planeta mergulhado em emergências climáticas e em uma desigualdade extrema criada pelo Capitaloceno — e pelas políticas que pintam de verde o capitalismo — vozes diversas de resistência ao modelo extrativista se uniram em uma coalizão Povos contra o Extrativismo. Esse espaço foi fundado em Belém no dia 9 de novembro para unir e articular movimentos, comunidades e organizações que enfrentam o despojo e apostam em uma transformação profunda de um sistema que ameaça vidas e territórios.
Essa rede internacional reúne experiências principalmente da América Latina e da Europa, com a determinação de ampliar sua presença no continente africano. A coalizão é formada por movimentos locais, povos indígenas, afrodescendentes e camponeses, assim como por diversas organizações sociais de massa. Todos lutam, a partir de diferentes frentes, contra o mesmo inimigo o modelo extrativista que sustenta a sobreexploração contínua dos bens comuns e a ampliação das fronteiras de produção para territórios considerados “improdutivos”. Não se limita à mineração ou ao petróleo. Inclui também monocultivos, agronegócio, biocombustíveis e megaprojetos energéticos que consolidam o modelo dependente e geram a reprimarização das economias periféricas.
Para essa rede, o extrativismo não é apenas uma prática econômica, mas também uma forma de organização do poder dentro das democracias liberais e um mecanismo de dominação que condiciona a vida das comunidades. Nesta nova fase de acumulação capitalista, o despojo — cinicamente convertido em zonas de sacrifício — se impõe sobre as pessoas e seus territórios, agora justificado em nome da transição energética. Nesse capitalismo verde militarizado, União Europeia, Estados Unidos e China competem pelo controle dos minerais necessários para sustentar o metabolismo econômico do centro capitalista. Nessa corrida acelerada para assegurar o acesso a matérias-primas críticas, que não representa nenhum avanço real na transição ecossocial, a mineração é hoje a expressão mais violenta do extrativismo, marcada pela militarização, deslocamentos forçados, racismo, criminalização e até assassinatos de quem defende os bens comuns.
A Aliança de Nações contra o Extrativismo defende que a proteção de habitats e ecossistemas é inseparável da luta contra a ofensiva extrativista neocolonial. Esse internacionalismo se constrói, em primeiro lugar, na denúncia e no apoio aos povos do Equador, Panamá e Peru, onde a repressão estatal se intensificou nos últimos meses com detenções arbitrárias, militarização de comunidades e processos judiciais contra lideranças ambientais e sociais. Ao mesmo tempo, diante da ampliação da fronteira extrativista, aposta na construção de alternativas desde baixo.
A resistência territorial se organiza em defesa da água, da terra, dos territórios e de quem os habita, articulando diferentes lutas e reivindicações. No Equador, comunidades amazônicas barraram projetos petrolíferos. No Panamá, um movimento popular conseguiu deter uma concessão minerária após semanas de mobilização. No Peru, as rondas camponesas mantêm viva a defesa coletiva dos bens comuns. Esses processos recolocam o direito à resistência como uma prática comum frente ao neocolonialismo extrativista.
O planeta e as comunidades não podem continuar esperando a boa vontade de governos que promovem a febre extrativista. Diante da expropriação de territórios, da militarização e da impunidade corporativa, essa rede internacionalista busca fortalecer a defesa do território como corpo vivo, porque o território não é um recurso é a base material da vida das comunidades e da natureza que o habita e, no caso dos povos indígenas, a base espiritual da vida. Também defende o direito à resistência, à autodefesa e à autodeterminação dos povos como pilares da justiça ecológica e social. E aposta na construção de alternativas comunitárias como economias solidárias, autogoverno, redes feministas e agroecológicas e muitas outras práticas impulsionadas por organizações locais.
Fortalecer redes contra-hegemônicas transnacionais é fundamental para enfrentar o poder corporativo e avançar rumo ao horizonte da vida digna e da justiça climática. Como reafirma Povos contra o Extrativismo em sua argumentação, nossos territórios não se negociam, se defendem.
Pedro Ramiro
Observatório de Empresas Multinacionais da América Latina (OMAL)
Maureen Zelaya Paredes
Ambientalistas em Ação
Reprodução do portal El Informante. Confira o original AQUI.
