A Cúpula dos Povos Rumo à COP 30 intensifica sua agenda com a realização de eventos dentro e fora da Universidade Federal do Pará focados na solidariedade internacional aos povos e na pressão por justiça climática, com uma transição energética e ecológica justa, reparação aos danos causados, sobretudo aos povos tradicionais e periferias rurais e urbanas, e financiamento climático justo, direto e público.
Os três pontos centrais da agenda que mobilizarão lideranças de 62 países, ativistas dos 5 continentes, líderes indígenas, quilombolas, pescadores, periféricos rurais e urbanos, movimentos sociais, organizações e redes de articulação são a Grande Marcha dos Povos por Justiça Climática (15/11), o Banquetaço e a entrega da Carta dos Povos ao Presidente da COP 30 (16/11), André Corrêa do Lago. A presença do presidente Lula é esperada.
Grande marcha dos povos (15/11)
A Cúpula dos Povos deverá levar cerca de 30 mil pessoas para as ruas de Belém, capital da COP30, na Marcha Global por Justiça Climática programada para este sábado, 15 de novembro. Este grande ato de rua percorrerá 4,5 quilômetros com povos vindos de diversos países para levar ao mundo mensagens em defesa de soluções reais para a crise climática.
Protagonistas das soluções reais, os povos originários, quilombolas, pescadores, juventudes, trabalhadores, homens, mulheres, pessoas trans e crianças mobilizados em uma ampla rede de organizações da sociedade civil marcharão por um objetivo comum: exigir a reparação pelos danos que as corporações e governos causam à sociedade, sobretudo aos povos tradicionais e periféricos ao apostarem em falsas soluções de eliminação ou redução de impactos.
A Marcha Global por Justiça Climática reafirma que não há tempo para ilusões. As chamadas soluções de mercado, como créditos de carbono, compensações florestais, geoengenharia e privatização dos territórios, aprofundam desigualdades, permitem que grandes emissores sigam poluindo e deslocam comunidades inteiras em nome de uma “transição” que não passa de maquiagem verde.
O documento político da Cúpula dos Povos denuncia que, enquanto corporações lucram com a crise, são os povos dos territórios que menos contribuíram para o aquecimento global quem carregam os impactos mais violentos. São enchentes, secas extremas, perda de biodiversidade, insegurança alimentar e o avanço de projetos extrativistas que violam direitos humanos.
Por isso, a Marcha Global por Justiça Climática reivindica que as decisões sobre o futuro do clima sejam tomadas a partir da justiça, da ciência dos povos e da defesa da vida, e não dos interesses econômicos que historicamente capturaram as negociações da ONU.
A marcha também ecoará a mensagem de que não haverá justiça climática sem justiça social, defendendo que soluções reais já existem e são construídas diariamente nos territórios com as práticas agroecológicas, manejo comunitário, economia solidária, proteção ancestral da biodiversidade, soberania alimentar e práticas tradicionais de cuidado com as águas e as florestas.
A mobilização pretende marcar simbolicamente o encontro entre os povos da Amazônia e delegações de todos os continentes em um chamado global: “Justiça Climática Já – pelo fim das falsas soluções e em defesa das soluções vindas dos territórios”.
Entre os eixos defendidos na mobilização estão:
* Reparação histórica e responsabilização de países ricos e corporações pelos danos causados;
* Fim das falsas soluções que transformam a natureza em ativo financeiro;
* Proteção dos territórios e maretórios, demarcação imediata de terras indígenas e quilombolas;
* Transição justa, popular e inclusiva, com direitos e escuta garantidos para trabalhadores e comunidades;
* Fortalecimento da democracia, enfrentamento ao racismo ambiental e às desigualdades;
* Centralidade dos maretórios e territórios das águas, reconhecendo o papel de povos ribeirinhos, pescadores artesanais e comunidades costeiras na defesa da Amazônia e dos oceanos.
“Além de lutar pela mitigação, para reduzir a emissão de carbono no nosso mundo, a gente precisa adaptar o sistema de saúde hoje para salvar as pessoas que já estão morrendo”.
A frase é do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante sua ida à Cúpula dos Povos, nesta quinta-feira, 14. Ele disse que a nova estratégia do Sistema Único de Saúde, batizada de “Mais Saúde Amazônia Brasil”, deve adaptar o serviço para atender a diversidade dos povos amazônicos que mais sofrem com as mudanças climáticas.
O ministro disse que veio, em nome do governo Lula, trazer duas grandes notícias relacionadas ao enfrentamento às mudanças climáticas. Primeiro, a decisão da COP30 de ter a saúde como um tema oficial da Conferência. Segundo, da criação do “Plano de Ação Belém”, que tem como ordem, adaptar os sistemas de saúde de todo o mundo para as mudanças climáticas.
Esse plano é pensado, sobretudo, para cuidar das populações que mais sofrem com as mudanças climáticas que estão na Amazônia, que são as mais vulneráveis do mundo, do sul global.
Para o ministro, as ações de mitigação são importantes, mas as mudanças climáticas já matam e adoecem pessoas hoje, além de destruir unidades de saúde, como aconteceu na semana passada no Paraná, com o ciclone que foi decorrente das mudanças climáticas.
“Então, além de lutar pela mitigação, para reduzir a emissão de carbono no nosso mundo, a gente precisa adaptar o sistema de saúde hoje para salvar as pessoas que já estão morrendo. O plano de ação Belém é isso, é uma ação de adaptação do serviço de saúde em todo o mundo para cuidar da população.
Ayala Ferreira – Coordenação Nacional do Movimento Sem Terra (MST)
“Nós, do MST, marchamos porque sabemos que a luta pela terra, pela água e pela comida de verdade é a mesma luta por justiça climática. Os povos dos territórios já provaram que existem soluções reais para enfrentar a crise, enquanto governos e corporações insistem em empurrar falsas promessas que só aumentam a fome, expulsam comunidades e destroem a natureza. Marchamos em solidariedade internacional, unindo trabalhadores do campo e da cidade, povos da Amazônia e companheiros de todo o mundo, para afirmar que a vida não é mercadoria e que a saída está na força dos territórios. É por isso que estaremos nas ruas de Belém no dia 15: porque sem justiça social, não existe justiça climática.”
Ivan Gonzales – Coordenação Política da Confederação Sindical das Américas (CSA)
“Vamos marchar porque os povos seguem construindo sua história de resistência, solidariedade e dignidade. Os povos, a classe trabalhadora, os povos originários e as comunidades somos a solução para as crises sistêmicas do capitalismo.”
Kirtana Chandrasekaran – Amigos da Terra International
“Dos rios aos mares, das favelas às florestas, estamos nos levantando juntos por soluções reais que sejam conduzidas pelos povos, não pelas corporações. Isso tudo faz parte de uma luta maior por mudanças transformadoras contra um sistema construído sobre a desumanização e a exploração dos povos e sobre a devastação do meio ambiente. Viemos de todas as partes do mundo para estar em solidariedade uns com os outros, fortalecer nossas lutas e traçar, juntos, um caminho para um mundo mais justo.”
Kirtana Chandrasekaran – Diretora Executiva, Friends of the Earth International
“Viemos marchar porque a crise climática é um sintoma de um sistema que há décadas sacrifica povos, territórios e ecossistemas em nome do lucro. Nossa presença aqui, junto aos povos da Amazônia e delegações de todo o mundo, afirma que a justiça climática só será possível com soberania dos povos, proteção das florestas e respeito às soluções ancestrais e comunitárias que mantêm a vida.”
Cupim – Coordenação do Movimento pela Soberania na Mineração (MAM)
“Marcharemos assim como marchamos há décadas, há séculos! Pela vida, pela manutenção das vidas no planeta Terra. Continuaremos lutando pelos direitos da classe trabalhadora, principal afetada pelas questões climáticas, e pelos direitos da natureza — afinal, somos parte dela. Marcharemos para denunciar e lutar contra todas as opressões e preconceitos, porque acreditamos em outra sociedade, que não seguirá os moldes atuais do modo de produção capitalista.”
Iury Paulino – Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
“Está chegando a hora da Marcha Global por Justiça Climática. Nossa marcha é amanhã, com concentração no Mercado de São Brás a partir das 7h e saída às 9h pontualmente. Vamos até a Aldeia Cabana levando todos os povos, todas as pautas, todas as reivindicações e todas as propostas de solução para a crise climática — e também a alegria e a diversidade dos nossos povos. Marcha por Justiça Climática já!”
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Sebastián Ordóñez Muñoz – Representante da War on Want
“Amanhã tomamos as ruas de Belém — marchamos na Amazônia — para tornar visível o processo político que vimos construindo há meses, a grande convergência que organizamos e o caminho que estamos traçando adiante. Como Cúpula dos Povos, caminhamos para consolidar nossa força coletiva: povos indígenas, quilombolas, comunidades ribeirinhas, movimentos camponeses, feministas, juventudes, sindicatos, comunidades negras e periféricas, pessoas migrantes, LGBTQIA+, trabalhadoras e trabalhadores do campo e da cidade, organizações do Brasil e do mundo. Na nossa diversidade, marchamos como um só corpo político.
Marchamos para reafirmar nossas lutas e declarar, com firmeza, que aqueles que negam a vida — que espalham medo, geram divisão, defendem o capital e atacam nossos territórios — não falam por nós. Defendemos a vida em todas as suas formas: os rios e as florestas, a biodiversidade, a memória, a história e o cuidado cotidiano que sustenta nossos povos. No coração da Amazônia, tomamos as ruas para dizer que outro futuro já está sendo tecido — e que o estamos construindo juntas e juntos.”
Trajeto da Marcha (15)
7:30 – Concentração no Mercado de São Brás, no bairro de São Brás.
9:00 – Saída do Mercado de São Brás
11:00 – Chegada na Aldeia Cabana, no bairro da Pedreira.
Percursos – Avenida Duque de Caxias, Travessa Mauriti e Avenida Pedro Miranda.
O prato é político: Banquetaço (15/11)
Banquetaço: a manifestação popular que transforma comida em ato político chega à Cúpula dos Povos
No dia 16, domingo, a Cúpula dos Povos realizará o “Banquetaço”, na Praça da República, às 14h. Será o terceiro grande momento de conexão direta com as ruas da capital da COP, quando os participantes farão a distribuição de alimentos para a população.
O Banquetaço é uma mobilização pública criada por organizações, movimentos sociais e coletivos ligados à luta pela terra, à agroecologia e à soberania alimentar no Brasil. Surgiu como resposta direta ao desmonte das políticas de segurança alimentar durante o governo Bolsonaro, período em que o país viu o fim do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e o retorno acelerado da fome a milhões de lares brasileiros.
Diante desse cenário, cozinheiras comunitárias, agricultores familiares, povos tradicionais, organizações urbanas e coletivos de agroecologia passaram a ocupar praças e ruas em diversas regiões do país com grandes banquetes públicos. Esses atos distribuíam alimentos de forma gratuita para denunciar a fome, reivindicar políticas públicas e afirmar que a comida saudável e produzida nos territórios é um direito e não um privilégio.
Mais do que um gesto de solidariedade, o Banquetaço se consolidou como uma ação política de forte simbolismo. Ao servir comida para quem mais precisa, os movimentos denunciam a violência da fome que aumenta com os eventos climáticos extremos e com o sistema que alimenta esses impactos. Também reafirmam a centralidade da soberania alimentar como pilar da justiça social e climática no Brasil.
Na Cúpula dos Povos rumo à COP30, o Banquetaço foi incorporado como parte essencial da programação porque a alimentação não é apenas logística. É política. A proposta da Cúpula é garantir que sua estrutura reflita os valores que defende como soluções reais vindas dos territórios, com a economia popular, o respeito aos modos de vida e defesa da produção local de alimentos.
Assim, trazer o Banquetaço para dentro da Cúpula reforça que a luta climática passa, necessariamente, pela luta contra a fome e pela valorização de práticas agroecológicas construídas por povos e comunidades tradicionais.
Entrega da Carta dos Povos ao presidente da COP 30(16/11)
No sábado, 16 de novembro, o ponto alto será a entrega oficial da “Carta dos Povos” ao presidente da COP 30, André Corrêa do Lago. A vinda dele até o espaço dos territórios foi compromissada em encontro realizado durante os preparativos para a Cúpula dos Povos. Na ocasião, o embaixador se comprometeu também a fazer com que a carta seja lida dentro do espaço oficial da COP.
O documento, fruto dos intensos debates e plenárias da Cúpula apontará horizontes para se enfrentar a crise climática a partir da perspectiva dos povos que no Brasil e no mundo estão fora dos espaços de decisão política.
O ato de entrega simboliza a busca por um diálogo direto e a garantia de que as vozes das comunidades, dos quilombolas e dos povos indígenas da Amazônia e do Sul Global sejam formalmente incorporadas e priorizadas na agenda oficial da COP 30, influenciando as decisões globais sobre o clima.
Foto:Carolynne Matos
