Leia a denúncia que conecta as lógicas racistas de controle e segurança no Rio e na organização da COP 30

No dia 28 de outubro de 2025, as forças de segurança pública do estado do Rio de Janeiro moveram um massacre que se configura como o mais letal do estado fluminense e do Brasil. Mais de 120 pessoas tiveram suas vidas ceifadas por um projeto de guerra às drogas ineficiente e racista que tem se mostrado uma verdadeira guerra aos pobres e negros. Este ato brutal evidencia o racismo institucional presente nas instituições de segurança pública do Brasil.

Trata-se de mais uma operação racista e midiática, que não ataca a raiz do problema, apenas escancara a orientação estatal pelo extermínio deliberado de jovens negros e pela violação sistemática de direitos da população empobrecida, ao transformarem pessoas moradoras de favelas em inimigos a serem combatidos. Essa violência evidencia que a crise climática e social também é uma crise de direitos humanos, atingindo principalmente corpos negros e periféricos. Tal operação se articula com um cenário internacional de ofensiva imperialista, que tenta imputar o estigma de narcoterrorismo à América Latina, justificando intervenções americanas à revelia da soberania nacional. Com a expansão de bases militares, acordos de cooperação em segurança e operações conjuntas sob o pretexto de combate ao narcotráfico e ao terrorismo, os Estados Unidos intensificam sua presença militar na América Latina, perpetuando uma lógica de controle geopolítico que ameaça a soberania dos povos, criminaliza movimentos sociais e legitima intervenções que historicamente serviram aos interesses corporativos na região.

A resposta da extrema-direita de forma articulada nas redes e mídias sociais reforçam a linha bolsonarista que pede intervenção estadunidense, entregando nossa soberania aos interesses capitalistas enquanto sacrifica corpos negros, LGBTQIAPN+ e as favelas. Essa lógica de dominação e expropriação de vidas reflete, de forma ampliada, a desigualdade estrutural que se manifesta também nas crises ambientais.

O Brasil abriga a maior população negra fora do continente africano. Segundo o IBGE (2022), mais de 56% da população brasileira se identifica como negra, ou seja, o somatório de pretos e pardos — o que corresponde a mais de 120 milhões de pessoas. Essa maioria é, historicamente, responsável por construir o país: nas cidades, no campo, nas artes, nas economias, no desenvolvimento, mesmo que dele não se beneficiem, tudo isso, por meio de resistência cotidiana ao racismo sistêmico. 

O conflito entre crime organizado, polícias e milícias têm imposto uma lógica de militarização da vida aos moradores do Rio de Janeiro, sobretudo nas favelas. Essa lógica, contudo, não torna a vida mais segura e nem resolve os profundos problemas cotidianos de uma sociedade profundamente desigual.

Nesse contexto, é importante também olharmos para o cenário da cidade de Belém, que se prepara para receber a Cúpula dos Povos e a COP30. Belém apresenta uma realidade distinta da do Rio de Janeiro, embora compartilhe com ele as marcas da desigualdade social, da ausência de políticas públicas estruturantes e da violência seletiva. Enquanto o Rio é historicamente atravessado pela militarização das favelas, pelas incursões policiais letais e pelo domínio de facções e milícias, em Belém o cenário se expressa de outras formas — com presença de facções com atuação local e conexões com grupos nacionais, mas sem a mesma visibilidade de guerra urbana que caracteriza o Rio. A capital paraense tem registrado redução nas taxas de homicídios nos últimos anos, mas isso não se traduz automaticamente em sensação de segurança, sobretudo para jovens negros e periféricos, moradores das baixadas, que seguem sendo os principais alvos da violência estatal. A diferença central é que, em Belém, a violência tende a ser menos espetacularizada pela mídia e menos associada a grandes confrontos, mas ainda reflete a mesma estrutura de exclusão e racismo que atravessa o país.

Aos companheiros e companheiras que virão a Belém para a Cúpula dos Povos, é importante ter atenção às dinâmicas locais e às desigualdades que moldam a cidade. Evitem deslocamentos sozinhos à noite ou em áreas pouco iluminadas e procurem circular preferencialmente em grupos. Usem transporte confiável (aplicativos conhecidos, táxis cooperados ou ônibus identificados do evento) e evitem portar objetos de valor de forma visível. A violência urbana em Belém, assim como em outras grandes cidades brasileiras, se manifesta em furtos, assaltos e conflitos localizados que podem ocorrer em diferentes regiões da cidade. É fundamental agir com o mesmo cuidado que teríamos em qualquer capital, respeitando os territórios, as populações locais e a dinâmica cultural amazônica. Reafirmamos que nossa presença aqui é também um gesto político — de solidariedade e escuta aos povos da Amazônia — e que nossa segurança depende tanto da atenção individual quanto da proteção coletiva que construímos entre nós.

No dia 31 de outubro, o governo federal decretou uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) especificamente para o estado do Pará, com foco na segurança durante o período preparatório e de realização da COP30, em Belém. A medida autoriza a atuação das Forças Armadas em atividades de patrulhamento, revista e controle de áreas civis, sob o argumento de reforçar a segurança pública. Embora apresentada como uma estratégia de proteção, essa medida nos preocupa, pois historicamente a militarização do espaço público tem significado aumento da repressão, especialmente sobre os corpos negros, indígenas e periféricos.

Diante disso, reafirmamos que nossa segurança não virá das armas, mas da solidariedade e da organização popular. Teremos uma equipe de segurança orgânica dos movimentos sociais, formada por militantes experientes e comprometidos com a proteção de nossos espaços e participantes, e uma assessoria jurídica popular de plantão durante todos os dias da Cúpula. Essas estruturas garantirão acompanhamento permanente de qualquer situação de risco, abuso de autoridade ou violação de direitos. Seguiremos atentos, firmes e organizados, porque nossa presença em Belém é um ato de resistência e de defesa da vida — a vida dos povos, das florestas e da Amazônia.

Neste sentido, é urgente e necessária a solidariedade dos povos do mundo e a denúncia do projeto racista, incompatível com a vida. Por isso, reforçamos o chamado para a construção de uma Cúpula que nos aponte o lugar estratégico e protagonista que temos! Denunciamos as falsas soluções do capitalismo, a militarização e o racismo e seguimos reafirmando a necessidade de construir uma sociedade em que a vida esteja no centro.

Seguimos de pé pelos que tombaram e pelos que aqui estão. Deixamos nossa solidariedade às famílias, que neste momento de dor e revolta diante a perda dos seus, também marcham pela dignidade dos seus territórios.